Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

TENHO UMA PALAVRA A DIZER...

 

TEXTO QUE PUBLIQUEI NO PSSADO DIA 15 DESTE MÊS:

 

 

 

Vive em combinações mágicas com 26 letras – as letras do alfabeto.

É que as palavras, tal como um ser vivo, nascem, vivem e morrem. São possuídas de carne e de espírito. «A palavra, que se saiba, é um ser vivo» dizia Victor Hugo.

Foi por isso que eu procurei uma palavra para me falar e me contar a sua vida.

Neste sentido, pus no jornal o seguinte

 

ANÚNCIO

 

Procuro

uma palavra que tenha uma palavra a dizer-me

 

Recebi uma resposta.

Combinámos encontrar-nos, através de uma password, num bar, para tomarmos uma cerveja. Ela recusou e eu disse-lhe que, neste caso, eu aproveitava para beber as suas palavras...

Foi neste ambiente palavroso que nasceu a nossa entrevista que passo a transcrever.

 

ENTREVISTA

Eu – Diga-me onde nasceu.

Palavra – Nasci na «Clínica da Laringe». Um nascimento normal, sem problemas. Fui assistido pelo «dr. Fonética» que declarou que eu tinha nascido com bons pulmões e boas cordas vocais, com um bom timbre na cavidade bocal, em função dos maxilares, dos lábios e da língua. Eu sou composto por várias sílabas e a minha mãe teria tido menos problemas na gravidez e no parto, se eu fosse monossilábica.

- E o que aconteceu, depois de ter saído da clínica?

- Os meus pais levaram-me ao registo civil, onde o notário me inscreveu no chamado «Dicionário», por ordem alfabética. Sabemos que nem sempre esta ordem respeita a dignidade dos seres e há casos, até, de contradição pura e simples. Por exemplo, sabemos que ‘sucesso’ vem antes de ‘trabalho’.

- E em que lugar ficou no dicionário, quanto à genealogia?

- Quer você dizer, quanto à minha etimologia. Sabe que tenho antecedentes que vão até  à «onomatopeia» das cavernas. As primeiras palavras teriam aparecido há cem mil anos até que, a partir da verticalidade do homem, permitiu à sua laringe descer ao nível da terceira cervical, até ao momento da ‘dupla articulação da linguagem’: a reunião de sons para fazer palavras e a reunião de palavras para fazer frases.

- Portanto, não houve, assim, problemas de maior na sua infância...

- No plano morfológico, tudo bem, na medida em que recebi as visitas regulares do doutor «Alfabeto», pediatra da escola que verificava se as letras do nosso esqueleto estavam no seu lugar. Ele recomendava que, com certas palavras, convinha, logo à nascença. armarem-se com os músculos dos ‘acentos tónicos’, para se evitarem ambiguidades. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a palavra «cágado».

- Uma vez que, quando atingiu certa idade, passou a frequentar a escola, fale-me desse tempo.

- Ainda me lembro do meu primeiro dia de ‘Gramática’. Entre nós, palavras, a ‘Gramática’ é a grande escola. E a falta dela traz maus resultados para o resto da vida.

Comecei pela ‘senhora Fonética’ que me ensinou a articular os sons da linguagem e, depois, passei à ‘senhora Morfologia’ que me mostrou, isoladamente, cada uma das minhas companheiras, sem olhar à ordem de importância nas frases. O pior foi quando passei pela «Mãe Sintaxe», onde nós, palavras, tínhamos que nos associar, umas com as outras, para formarmos frases. Porque, à saída da Escola, às vezes, éramos assaltadas por um banda de ‘Solecismos’ ou palavras esquisitas, ou seja: erros ou faltas contra as regras da Sintaxe, estranhos à língua, que nos agrediam com violência.

A «Mãe Sintaxe» era a directora da Escola «Gramática» a que ela presidia com um exército de professores muito rigorosos chamados «Regras». Para me poder defender, eu valia-me da amizade da «Concordância», uma amiga perfeita que procurava ajudar-nos, para podermos ser compreendidas. Por vezes, formávamos um grupo de colegas, mas a «Concordância» veio e obrigou-nos a fazer camaradagem com as colegas concordantes, respeitando as regras de género, número e pessoa. No entanto, temos de estar atentas à senhora «Excepção» - dizem, até, que não há regra sem excepção, a vigilante geral que tem muita influência.

Não é coisa assim tão simples porque é na «Senhora Sintaxe» que assenta a arquitectura da língua que deve respeitar a ordem das palavras para a compreensão da frase, não esquecer que nós, as palavras, somos ‘o futuro da nossa bela língua’.

- Naturalmente, não se teria ficado por aqui.

- Não senhor, depois, passámos à parte mais difícil porque mais complicada. Refiro-me ao nosso professor «Regras de Conjugação». Houve uma altura em que fomos repreendidas pela «senhora Sintaxe» porque estávamos em completa desordem. Eu não percebia a diferença e tive que dizer à minha professora: ‘Senhora, não é a mesma coisa estar à direita ou â esquerda? Qual a diferença entre ‘um homem pobre’ e ‘um pobre homem’? Ela respondeu-me:

Mais tarde, tu poderás ser um ‘homem grande’, mas nunca ‘um grande homem’. Então, aí, eu compreendi.

Depois deste puxão de orelhas da Senhora «Sintaxe», voltámos a ser incomodadas pela nossa professora principal, - a senhora «Regra».

- ‘O’ ... que estás aí a fazer ao pé de «’casa’, vou castigar-te com um suspensão por assédio textual. E tu ‘amanhã’ podes fazer o favor de te afastares de ‘fui’ e ocupares o teu lugar lógico na frase, encostando-te a ‘irei’?

Era assim que o nosso «Professor de Sintaxe» nos treinava para aprendermos a viver em equipa ou, como agora se diz, em sociedade, e sermos compreendidas.

O que nos valia, por vezes, nestes ateliês, era o nosso animador genial, o senhor «Estilo». Era o máximo! Era um poço de fantasia e imaginação. Era ele que nos ensinava os truques quando via a senhora «Sintaxe» de costas...

- Teria sido ele que vos marcou...

- É verdade. Lembro-me, por exemplo, de um exercício que nos marcou:

Havia ‘olhar’, azul’, ‘céu’ e ‘água’.

Não sabíamos bem o que se poderia fazer com este conjunto morfológico, mas tínhamos que contar com o sentido lúdico do senhor «Estilo». Não contem com a senhora «Regra», passem ao largo. Tu, ‘azul’, porque não te associas, fazendo paredes-meias com ‘ olhar’? E tu, ‘água’ porque te não comparas a ‘calmo’ e ‘sol’?.

Eis o estilo ou deslumbramento que resulta desta vizinhança:

 

O meu olhar azul como o céu

É calmo como a água do mar

 

Fernando Pessoa, Poemas de Alberto Caeiro

 

A senhora «Sintaxe», quando chegou e viu o resultado destas associações ficou furiosa. Na verdade, não tinha boas relações com o senhor «Estilo».

Para me vingar, um dia vou mostrar este trabalho a um homem que escreve livros. E que faz associações de palavras, as mais variadas e geniais, com muita arte e imaginação, irritando, por vezes, a senhora «Regra».

 

publicado por argon às 18:24
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