Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

FESTIVAL ALTITUDES «» UM PAÍS FUTEBOLIZADO

 

FESTIVAL ALTITUDES
 
Vai já na 12ª edição este Festival de Teatro do ‘Teatro do Montemuro’ que todos os anos se realiza na aldeia de Campo Benfeito, concelho de Castro Daire.
Desta vez, fui encontrar a pequena aldeia onde todos os anos passo férias em Agosto e onde tenho uma casa de férias, mais bonita, de cara mais lavada e a cheirar a progresso e modernidade. É que o Município de Castro Daire e os vários patrocínios particulares e oficiais capricharam em embelezar esta pequena localidade, das «Aldeias de Portugal». E por dois motivos: por ela ser a «aldeia capital do teatro» e por ter em laboração «As Capuchinhas», uma pequena empresa de confecção de peças de vestuário tradicionais, feitas artesanalmente, a partir de tecidos de linho e burel, por meio de teares, como se usavam noutros tempos e hoje quase em vias de extinção. Peças que comercializa e vende para fora.
O Jornal ‘Expresso’ e o ‘Público’, que eu visse, incluíram nas suas páginas de Verão o programa do Festival de Teatro. Mas eu assisti a todos os números do programa e, por isso, estou habilitado a fazer de repórter deste evento.
Estiveram presentes com a sua actuação as seguintes Companhias de Teatro convidadas:
Aduf, Adufmúsica; Teatro Ao Largo; Quadrilha; Teatro de Marionetes de Mandrágora; Kalid K; Teatro ACERT; Teatro das Beiras; Comuna Teatro de Pesquisa; Companhia do Chapitô e a presença do anfitrião Teatro de Montemuro, de Campo Benfeito.
O festival ocorreu de 8 a 16 de Agosto deste ano e prolongou-se por nove dias. Tinha duas vertentes: o teatro, com a exibição de peças de teatro de várias companhias convidadas e uma secção de ‘workshop’ ou ‘atelier de trabalhos manuais’, todas as manhãs, sob a designação de ‘impressões e expressões’, executados por crianças e orientados por Romana Lima. Além disso, a aldeia respirava um ar de festa, notava-se, ao percorrê-la, pois deparámos com espaços imaginários, coloridos e divertidos, nos mais inesperados locais. Vimos mais de 50 crianças a executar peças no atelier anexo em trabalhos manuais, que, no último dia do festival, foram expostas nas ruas da aldeia. Todas a aprender a fazer, a fazer, através de um jogo de desenhos, cortes e recortes e colagens. Houve, também, no primeiro dia, um espaço de aprendizagem de fabrico do pão. Tudo com um interesse inusitado.
Quanto às peças de teatro, para me não alongar, destacarei, apenas, as seguintes:
8 de Agosto, ás 21.30 h.: «Presos por uma Corrente de Ar», pelo Teatro de Montemuro, peça exibida ao ar livre e de entrada livre. Uma peça de um cómico irresistível.
Às 23. 00 h.: O grupo «Aduf»,«Adufmúsica» fez uma exibição de adufes sincronicamente executados, para admiração de todos. Guitarra, vibrafone, trompete, gaita-de-foles, teclados, a acompanhar a voz da cantora Maria Berasarte, na procura de novas abordagens, contrastes e caminhos de expressão artística. De salientar as sincronias sonoras dos vários instrumentistas num jogo másculo todo feito de percussões rítmicas impressionantes.
Dia 12: «Voyage Sonore et Musical, por Kalid K»
É um percussionista, cantor, contador de histórias, convida-nos a fazer uma viagem à volta do mundo. Nunca tinha estado num universo sonoro e visual tão singular, sem palavras, mas de uma forma lúdica, familiar e poética, armado com a sua versátil voz, três gravadores que pareciam coisas rudimentares e alguns acessórios, todos os gravadores dedilhados, a espaços, com um toque de dedo da mão e com o dedo grande do pé com os quais fazia, inventava sons orquestrais e ritmos fantásticos, paisagens sonoras de sonho e encantamento. Encarna habilmente diversas personagens e animais que sugere com os sons orquestrais dos seus instrumentos, numa espécie de magia. Foi o espectáculo que mais me agradou. Pela versatilidade do cantor. Um prazer que pede bis.
Dia 13: «Chovem Amores na Rua do Matador», pelo Trigo Limpo, teatro ACERT.
Uma peça escrita a quatro mãos, por José Eduardo Agualusa e Mia Couto, uma aposta -encomenda do ‘Trigo Limpo’ a estes dois escritores.
Dia 15: «A Afilhada de Santo António» pela «Comuna – Teatro de Pesquisa». Uma peça de António Torrado, escrita toda em verso, à maneira dos antigos autos, uma peça enternecedora com a marca do nosso santo milagreiro.  
Todos os espectáculos tiveram a lotação esgotada. E uma percentagem significativa era constituída por crianças, algumas de colo e de berço.
O ‘Teatro de Montemuro’ tem vida própria e dá espectáculos e desenvolve acções de formação pelas várias partes do país durante todo o ano. Por vezes, desloca-se ao estrangeiro. A sua fama já ultrapassou as fronteiras. Tem Casa de espectáculos nova, de raiz. Recebe vários subsídios que lhe garantem e estimulam a existência e a vitalidade.
Artur Gonçalves
«»
 
UM PAÍS FUTEBOLIZADO
 
O nosso país estará completamente futebolizado?
Eu creio que ainda não está, mas para lá caminha. Quem consulte os jornais desportivos e os jornais diários de referência, bem como os gratuitos, e verificar os espaços dados ao futebol pelas televisões, facilmente chegará a essa conclusão. Temos mais jornais desportivos, em proporção, do que qualquer outro país. Por outro lado, já tenho visto ser cortada a palavra a intelectuais e políticos e nunca vi cercear o tempo aos parladores do futebol, na televisão. Para estes não há limite de tempo de fala, apesar do seu discurso pobrezinho e cheio de lugares-comuns.
Há uns tempos recentemente passados, três jornais diários dão-nos a ideia daquilo que eles julgam ser a maior preocupação dos portugueses. A tristeza em que vivem, mercê das mais adversas circunstâncias, os nosso queridíssimos jogadores de futebol.
Debrucemo-nos sobre cada um dos jornais em um mesmo dia: Correio da Manhã, 24 Horas e Record:
Eis a manchete do «C. M.»: «João Sabrosa perde sobrinho no mar».
A manchette da lª pág. do «24 Horas«: «Sobrinho de Simão levado pelo mar».
A manchete de «Record»: «Mar leva sobrinho de Simão». Até parece que todos estes jornais se combinaram para trazerem para a primeira página e pelas quase mesmas palavras este infausto acontecimento.
E o «Record» acrescenta, em letras mais miúdas, a acompanhar a manchete de primeira página. «Tragédia de Matosinhos alarga-se ao futebol».
Mas há mais coincidências:
Os três jornais citados ocupam a quase totalidade da 1ª página (a mesma área de espaço); os três exibem a foto de Simão e da mulher; os três apresentam Simão e a mulher muito compungidos; os três dão a entender que estão convencidos que esta é a preocupação mais importante dos portugueses: a dor de Simão provocada pela morte do sobrinho; os três pensam que todos os portugueses têm obrigação de saber quem é Simão e que ele é o jogador de futebol mais importante do país  a que todas as almas se devem render em tributo de solidariedade, pela morte de um seu  sobrinho.
E a pergunta que se põe é esta: então, e a criança? Então, e os pais? Onde está o nome e a tragédia dos pais? Só Simão é digno de referência e de compaixão? Não interessa focar a dor dos pais?
Só, sim, senhores. Nesta tragédia, o importante é que os portugueses saibam que o futebol está de luto, que foi atingido profundamente pela mão do destino traiçoeiro.
Está de luto porque morreu um jogador de 1ª água? Não, mas porque atingiu um futebolista de classe. O resto não tem qualquer interesse.
Só faltara decretar três dias de luto nacional. Pela morte da criança? Não, senhores: pela dor do Simão.
No dia em que escrevo estas linhas, leio, a propósito da derrocada de um morro na praia de Maria Luísa, em Albufeira, acontecida ontem, na 1ª página do sensacionalista «24 horas»: «Morreram à porta de Figo». Eu diria que morreram mais à minha porta, - tenho uma casa mais perto, do que está a porta de Figo.
Os jornais continuam a massacrar os portugueses com este género de notícias. Felizmente, o Ronaldo só faltou a um jogo, foi afectado por uma gripe passageira que não veio a reflectir-se no resultado do Real Madrid, pelo contrário, na sua ausência, o seu clube ganhou ao adversário. Não fez falta nenhuma.
O futebol é um mundo fora deste mundo. Os seus manda-chuvas continuam a viver fora deste planeta, noutra galáxia. Continuam a vomitar milhões nas grandes e escandalosas negociatas. O futebol deixou de ser um entretenimento, para passar a ser um negócio. De milhões. E há quem diga que devem muitos milhões ao Fisco, coisa a que este liga pouca importância. Repare-se no obsceno escândalo dos 94 milhões euros pela transferência do jogador mais caro do mundo. Que, para levantar à estratosfera o orgulho nacional, - imagine-se! - é português! E repare-se que, a companhia de seguros que lhe segurou as pernas por 100 milhões, não está a contar pagar-lhe por invalidez, que Deus não permita que aconteça.
Os media continuam a insistir que o futebol é a maior preocupação dos portugueses. E as televisões, idem aspas. Há dias, um canal de TV deixou o ‘menino guerreiro’ Santana Lopes pendurado, enquanto estava a ser entrevistado. O programa foi suspenso porque o (i)responsável pelo programa entendeu que era mais importante ligar ao aeroporto onde estava um repórter para dar a notícia bombástica da chegada de outro nome do mesmo relicário de heróis, da mesma galáxia bolar. Mourinho que, bem feito! se negou a falar para os jornalistas. Santana, como represália, levantou-se da cadeira e desapareceu. Para não mais voltar? Em definitivo, se não adorasse as luzes da ribalta. Ele continua constantemente presente nas televisões, enquanto houver televisão, esquecido de que os media que ora o destronam e o destroem, ora lhe constroem uma catedral para adoração, consoante as conveniências mediáticas do momento. 
Eu já nem entro no mundo dos milhões de Ronaldo! Tão jovem, tão imaturo, será uma sorte ele ser capaz de resistir a tamanha abundância. Ele, que mal tem tempo para dar largas às suas paixonetas, quanto mais para gastar semelhantes somas! Se não tiver cuidado, poderá ser vítima de tanta abundância. Não será o primeiro, nem o último!
E um jogador de futebol é a pessoa mais bafejada pela sorte e aquela que ganha o dinheiro com menos esforço, por mais que a imprensa e os seus jornalistas desportivos teimem em dizer que é uma actividade de desgaste rápido.
Comparem só o tempo de treinos de um jogador com as 100 horas de ensaios de Michael Jackson, o ‘rei da pop’, de que há gravação e há já autorização para fazer um filme, para preparar a tourné que ia efectuar, a começar em Londres e que, por ter morrido, já não efectuou.
Compare-se com o tempo gasto em ensaios de Madona, uma das estrelas mais cintilantes do universo musical, no concerto que deu em Lisboa para comemorar os seus 50 anos e os 25 de carreira. Fez-se acompanhar, não de meia dúzia de responsáveis, de mãos a abanar, como no futebol, mas de 250 pessoas que constituíam o seu staff, 3.500 peças de roupa, transportadas por 30 contentores, 69 guitarras, 16 empregados de catering, etc., com saída de palco sete vezes, para mudar de roupa. E ensaiou durante 650 horas! É uma arte esta, que requer muito mais esforço e arte do que o tempo e arte (?) dispendidos por um jogador de futebol ou uma qualquer equipa! Uma actuação artística dos chamados monstros sagrados e consagrados que precisam de uma plêiade de colaboradores a actuar em palco, precisam de muitos ensaios, porque se trata de exercícios sincronizados, que não permitem falhas ou passos em falso, o que não acontece no futebol que, muitas vezes, é meia-bola-e-força, é só chutar para a frente sem tino nem regra.
O jogador não tem tempo de pensar, age, muitas vezes, por instinto. A cabeça deles, digamos, sem ofensa, está nos pés.
 E o curioso é que há mais adjectivos bombásticos, superlativos encarecedores atirados aos jogadores e clubes, sobretudo pelos jornais desportivos, às vezes, para enaltecer jogadas ou golos que nada têm de extraordinário, do que os que são escritos para descrever uma actuação de um/a artista de gabarito que levou ao rubro uma plateia inteira durante todo o tempo de actuação. Querem um exemplo? Lá vai: «Nova ninhada de leões a caminho da fama e da glória». C. M. - referência a dois jogadores do Sporting, grandes esperanças leoninas. O que significa supercampeões, supertaça ou superdragões?
Mas os portugueses, em geral, não se deixam levar pelas sereias do futebol e andam mais preocupados com fazerem face às dificuldades económicas, sociais, jurídicas e políticas, do dia-a-dia, com o desemprego, com as pensões baixas, com o endividamento das famílias e com os impostos. Por mais que os media insistam em alterar as regras do jogo e as dificuldades da vida.
ARGON
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publicado por argon às 18:38
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1 comentário:
De Jorge G a 12 de Setembro de 2009 às 03:54
Gostei muito deste artigo.
Este País está entregue aos bichos... da bola!


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