Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

MAS O PASSAPORTE, SENHORES?

 

MAS O PASSAPORTE, SENHORES?
 
Corria o ano de 1964. Eu encontrava-me em Santa Comba Dão, a terra onde nasceu Salazar. Durante os dois anos que lá estive, mantive relações de cordialidade com alguns habitantes, residentes nesta terra. Com algumas pessoas mantive, mesmo, relações privilegiadas. Porque sempre procurei privilegiar as pessoas com as quais procurei dar-me bem, consegui granjear a amizade, a consideração e o respeito daquela gente.
Ora, foi neste quadro que aconteceu o caso que passo a relatar.
O meu irmão Joaquim estava, nesse tempo, empregado em Lisboa. E um dia, quando o visitei, disse-me que estava revoltado com o emprego que tinha, por lhe não agradar e porque trabalhava muito e recebia pouco. E pediu-me se eu conseguia arranjar-lhe passaporte para França. Numa altura em que se estava no pico das passagens clandestinas em larga escala para este El Dourado francês que todos almejavam alcançar, fosse a que preço fosse. A terra de nascimento de meu irmão, Alfaiates, na fronteira com Espanha, era um viveiro de gente a passar-se com estatuto de clandestino ou a salto, como era vulgar dizer-se, para França, todos os dias. Havia, até, alguns destes pobres em cadeias de Espanha e de Portugal por terem caído na rede das autoridades fronteiriças.
Toda a gente sabe que o regime de Salazar exercia aturada vigilância para reprimir este atrevimento a que muitos se sujeitavam, porque em Portugal, nesse tempo, a pobreza, nalguns casos extrema, obrigava a todos os riscos e sacrifícios. A minha terra, e toda a região, sofreu uma debandada geral, a ponto de só ficarem as mulheres, as crianças e os jovens.
No entanto, o pedido do meu irmão era uma irracionalidade. Podia dizer-se que era coisa impossível. Quem é que seria capaz de se aventurar a solicitar um passaporte a favor de um jovem, vindo há pouco das berças, sem qualificações profissionais, nem académicas? Eu respondi-lhe que ia tentar, mas que não contasse muito com isso. Seria um milagre que nunca nenhum português, nestas circunstâncias, conseguiu.
A verdade é que o pedido me acompanhou em toda a viagem de regresso a Santa Comba e nos dias seguintes. Este SOS não me saía do pensamento. O meu irmão queria ir para França trabalhar, mas não queria passar pelos caminhos difíceis e penosos da clandestinidade. Ele sabia de relatos muito sofridos de colegas que se atreveram a passar os Pirinéus de noite e em dias frios de Inverno. Mas o passaporte, senhores? Seria eu capaz de lhe arranjar o passaporte? E comecei a matutar no assunto e a estudar a melhor estratégia para o conseguir.
Eu tinha um amigo, com o qual me dava bem e conversava muito, que era presidente da administração de uma empresa, sediada em Santa Comba Dão. E um dia fui a sua casa e disse-lhe:
«Hoje, venho aqui por um motivo diferente do habitual. Tenho aqui comigo um método de aprendizagem de francês que eu criei e publiquei há pouco tempo que desejava lançar em França, precisando, para isso, de me deslocar a Paris, para negociar os termos de um contrato com uma editora. (E ele viu que era verdade: eu mostrei-lhe o método). Quem devia ir lá era eu, mas acontece que não posso abandonar os meus compromissos que me prendem a esta terra, para ir a Paris. Tenho um irmão em Lisboa que está disposto a representar-me nesta tarefa. Mas tem um problema muito grave: não tem passaporte para se deslocar. Poderia o senhor exercer os seus bons ofícios junto do sr. Governador Civil de Viseu, para este mandar passar o passaporte em nome do meu irmão?» O senhor nem quis saber de mais pormenores. Pediu-me que entrasse em contacto com o meu irmão, que fizesse um requerimento, nesse sentido, ao sr. Governador Civil, que ele mesmo seria o portador junto de sua excelência.
A coisa não podia ter corrido melhor, pelo menos, até aqui. Eu fiz como ele indicou e ele mesmo, depois de ter recebido o requerimento, foi a Viseu, de propósito, e entregou-o pessoalmente. Ignoro as circunstâncias em que decorreu este pedido.
O tempo foi passando e eu e o meu irmão estávamos ansiosos por assistir à cena do próximo capítulo. Passado o tempo julgado suficiente, o meu amigo convocou-me para me dizer que o passaporte estava pronto. Que podia ir levantá-lo ao Governo Civil. Foi o que eu fiz. Meti-me no meu carro e depressa venci os 40 quilómetros que me separavam de Viseu. Foi só chegar à repartição do governo civil, solicitar o passaporte e eis que aí venho eu, todo ufano, com esta preciosidade na mão. Telefonei logo ao meu irmão que veio pessoalmente, no dia seguinte, a minha casa. Eu entreguei-lhe o passaporte e ele começou a fazer contas à vida e a fixar o dia em que devia partir, legalmente, despido dos medos da clandestinidade, rumo a Paris.
O meu amigo, dias depois, disse-me que os funcionários do Governo Civil ficaram agastados e estranhos perante a falta de formalidades que lhe tinham passado ao lado, para a obtenção deste passaporte. Era a primeira vez que tal acontecia! Eu tinha chegado ao guichet e depois de ter pedido o passaporte foi-me dado imediatamente, sem qualquer tipo de restrição ou observação.
Mais: quando eu solicitei para mim o meu passaporte turístico, alguns anos antes, lembro-me que dois funcionários da PIDE se apresentaram em minha casa e só depois disso e muito tempo depois, me passaram o passaporte que me concederam porque tinha habilitações académicas bastantes e não tinha nenhum impedimento político. Toda a gente sabia que, quando se pedia um passaporte, uma das formalidades principais requeridas, além de outras, era a da recolha de informações da PIDE. Não havia excepção. Pois, meus senhores, a PIDE não foi chamada para a passagem do passaporte do meu irmão!
Mas a história deste passaporte não ficou por aqui, como eu julgava.
Sem o saber, tive que esperar mais de dez anos para ouvir o resto, contado pelo meu irmão.
A terra em que ele nasceu e cresceu, antes de ir para Lisboa dista, apenas, 24 quilómetros da fronteira espanhola, - terra de má fama, na perspectiva das autoridades fronteiriças, por ser terra de contrabandistas. E, chegado o dia, depois de se despedir de meus pais, apresentou-se nos serviços alfandegários de Vilar Formoso, a caminho de Paris. Os funcionários, com o passaporte aberto, leram o nome, a terra de nascimento, terra de contrabandistas e passadores, olharam para ele, viram-no, ao que presumo, com as mãos talvez um pouco calejadas, trajado de fresco com um fato domingueiro, mediram-no de alto abaixo, e um deles, sem desprender os olhos do passaporte, disse: «este passaporte não é válido. O senhor não pode seguir viagem». O meu irmão, que já sonhava com o lugar cativo no comboio que partiria dentro de pouco tempo, teve uma ideia luminosa, ao dizer-lhe: «ai o senhor não me deixa passar e diz-me que este passaporte não é válido? Vou já telefonar ao meu irmão ‘que vive em Santa Comba Dão’ e já vamos ver como é! Esperem um pouco, que eu já volto!». Os homens, quando ouviram falar em Santa Comba Dão, ligaram logo o ditador ao nome da terra de nascimento e, com receio de que lhe «tirassem o barrete» - bela expressão regional! (isto é, que o destituíssem do cargo) disse imediatamente, fechando com um gesto brusco o passaporte que estendeu ao meu irmão:
- Pode seguir viagem!
Quando, dois anos depois, eu fui a Munique (Alemanha), à fábrica, levantar o meu BMW 2002, passei por Paris e fiquei hospedado em casa de meu irmão que, ao tempo, já estava legalizado e empregado e vivia com a mulher e duas filhas.
 
 
publicado por argon às 16:56
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