Domingo, 31 de Janeiro de 2010

ELOGIO DO INVERNO - UM EXERCÍCIO DE ESTILO

 

 
Para a Clara Ferreira Alves que odeia o Inverno
 
Eu odeio, detesto, abomino, com um sentimento enraizado, o inverno
Clara Ferreira Alves, Expresso, Rev. Única, 16.01.2010
 
A estação do ano que mais me agrada, aquela que, na verdade, mais me enche as medidas do corpo e da alma, é a estação do ano que dá pelo nome de Inverno.
Nem o Verão, com o seu sol esplendoroso, nem a Primavera com as suas tardes amenas e manhãs deliciosas, nem o Outono com as sua ventanias desfolhantes e as suas nuvens pardacentas e tristonhas se harmonizam com o meu perfil de homem beirão, curtido, desde a nascença, pelas bátegas das chuvas, pela brancura das neves álgidas, pela água em gelo dos cântaros, pelas visões da natureza como que em hibernação e pela crosta dos campos lambidos pelas geadas.
É tão agradável tiritar de frio; tão comovente sentir as frieiras nos bicos dos pés e nas pontas das orelhas; tão aprazível sentir por todo o irmão corpo os ritmos harmoniosos de uma camada difusa de calafrios; tão poético sentir o corpo arrepiado ao sabor de uma nívea frescura de uma linda noite de invernia; tão simpático e refrescante ser castigado por uma inesperada e desprevenida molha; tão reconfortante apanhar uma refrescante saraivada puxada pelo vento suão; tão simpático e aprazível deslizar sobre a brancura imaculada da neve, num clima de temperaturas negativas!
Se soubessem a alegria, o entusiasmo, a comoção, o prazer, a paz e quietação do espírito quando vejo uma pessoa a queixar-se das intempéries do tempo e das inclemências do clima, a irritar-se contra uma «natureza em tudo aborrecida», puxada pelo vento e batida pela chuva! Não encontro palavras para descrever este meu sentimento de um indescritível paisagístico, porque extraordinário e excepcional, raro e singular!
Oh querido Inverno, meu querido e estimado Inverno! Quem te não ama, não te compreende; quem te não estima, é porque te não conhece; quem se revolta contra ti, não sabe definir a beleza; quem te lastima, é porque nunca teve uma gripe; quem de ti mal diz, é porque nunca curtiu uma constipação; quem te esconjura, não sabe o que é viver, quem te ridiculariza, não fala coerentemente, quem te não elogia, não sabe o que é um ‘delirium tremens’!
Que harmonioso o som de um a... tchim! Que melodia num tossir segundo as leis da repetição e da alternância! Que beleza acústica numa fala fanhosa e esganiçada! Que visão deslumbrante no espanejar do lenço, arrancando o nariz a golpes de pulmões! Que espectáculo de maravilha um nariz abatatado e vermelhudo!
Só quem nunca sentiu febre; só quem jamais sentiu arrepios; só quem nunca teve um repetido ataque de tosse; só quem nunca sentiu as narinas entupidas, frieiras nos pés e nas mãos, é que terá alguma desculpa por não saber apreciar as virtualidades benfazejas que estão por detrás das aparências borrascosas do Inverno.
Espirros? Ai, gosto tanto de espreitar a ginástica malabarista que os acompanha!
Por minha parte, não me lembro de alguma vez ter estado com gripe A, B ou C. Talvez por ter sido vacinado em garoto pelas inclemências disparatadas das invernias.
Lá fora, ai que lindo frio e que valente saraivada de granizo, empurrada por uma forte ventania!
Eu sou um optimista: espero passar o resto deste Inverno sem cair engripado com a gripe sazonal porque, a primeira do alfabeto, já lá vai e mata menos do que aquela.
Cá dentro...
A...tchim!
- Santinho!
- A... tchim! A ...tchim! Ah ...tchim!
Dizem-me que é a…tchim que ela começa!...
ARGON
publicado por argon às 21:53
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1 comentário:
De Teresa Gonçalves a 6 de Fevereiro de 2010 às 19:10
Espetacular!


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