Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

O PARALTA

O     P  A  R  A  L  T  A

 

UM RETRATO A CORPO INTEIRO

 

Ninguém sabia o seu nome de baptismo, talvez porque não foi baptizado. Ninguém sabia onde nem quando nasceu. Muito menos quem eram os seus progenitores. Conheci-o já na sua idade de adulto, era eu ainda criança, este andarilho da triste figura.

Era alto, de magras carnes, de uma certa beleza apolínea – daí, talvez a alcunha, sempre trajando da mesma forma: um par de calças cinco centímetros acima dos tornozelos, uma camisa velha e enxovalhada e um casaco mal aparado e, por vezes, um chapéu, uns pés compridos, sem meias, enfiados nuns sapatos velhos que, em novos, deviam ter ficado bem a quem lhos deu. Cabelo geralmente curto e desgrenhado, dava mostras de nunca ter visto pente, tinha uns olhos faiscantes, de olhar penetrante que amedrontava tudo e todos quando calhava de mostrar-se em passagem rápida e cadenciada, nas suas raras passagens pelas ruas da freguesia.

Não possuía bilhete de identidade, nem qualquer documento de identificação. Não pagava impostos porque não tinha nada de seu, apenas, como S. João de Deus, os palmos da estrada que ia pisando. Não pagava renda de casa porque não tinha casa, nem sítio costumeiro em que se refugiasse, de dia ou de noite. Era uma espécie de fantasma em figura de gente, um vagamundo, sem eira nem beira, nem ramo de figueira. Andava sempre a pé, sempre com o mesmo fato e nunca ninguém o viu a pedir boleia ou a deslocar-se em qualquer meio de transporte. Nunca exerceu nenhuma profissão. Presume-se que não sabia ler nem escrever, sendo um analfabeto puro na verdadeira acepção da palavra, pois nunca ninguém lhe viu nenhum escrito nas mãos que, por norma, andavam sempre desocupadas. As suas malas e bagagens estavam sempre em estado de prontidão, pois deslocava-se sempre desprovido fosse do que fosse. Nunca foi visto a trabalhar. Nunca teve dinheiro consigo até por nunca ter precisado dele e duvida-se que o soubesse contar.

O sentimento de posse que é um dos apanágios mais característicos, marcantes e sagrados da grandeza humana, estava nele em grau zero, pois não era senhor ou detentor de nada. O mesmo se diga da ambição que obriga uma pessoa a caminhar em frente.

Sociabilidade, nenhuma. Nunca ninguém o vira acompanhado ou a conversar fosse com quem fosse. Também ninguém podia arrogar-se da dita de o ter visto a rir. A sua cara demonstrava um homem sisudo, naturalmente calejado pelos desconcertos do mundo, sempre muito sorumbático e circunspecto. Chorar, não se sabe se alguma vez chorou, podendo aventar-se a hipótese de nunca ter derramado uma lágrima. Não é que não tivesse razões de sobejo para isso, face às injúrias e injustiça que iam caindo sobre ele. Apesar disso, nunca se queixou da sorte e a sua consciência nunca o teria acusado de nenhuma falta e sempre o inocentou.

As crianças temiam-no e fugiam dele como o diabo da cruz, os jovens escarneciam dele, mas só de longe, lançando-lhe, alguns mais atrevidotes, mas com a retaguarda de retirada em mira, escondendo-se em seguida, o inocente labéu de «olha o bicho!» ou: «cascarão!». Os mais adultos ignoravam-no pura e simplesmente.

Ninguém sabia onde ele dormia, nem como se sustentava aquela figura esbelta em figura de gente. Jamais houve alguém que se pudesse gabar de ter tido, ao menos, dois dedos de conversa com ele. Ninguém sabia qual a natureza, nem o timbre da sua voz. Mas todos admiravam as excelências harmoniosas do seu canto quando, na escura calada da noite e na intermitência do sono, julgavam estar a ouvir alguma voz de querubim da corte celestial.

O seu rol de povoações que visitava, talvez sob um critério criteriosamente definido, circunscrevia-se a um raio de cinco quilómetros e as terras visitadas eram ciclicamente as mesmas. Mas Alfaiates, minha terra de nascimento, do concelho do Sabugal, exerceu sempre sobre ele um certo fascínio, com base no facto de ser a terra mais visitada, pois era a terra onde ele permanecia com mais demora e assiduidade, embora nunca tivesse assentado arraiais em terra nenhuma. Nunca ninguém soube explicar porquê. Quando estava, várias vezes percorria as ruas da freguesia uma abaixo, outra acima, naquele seu ar de solitário, guiado, não se sabe, por que estrela, mas sempre com as horas marcadas e os passos sempre medidos e obedecendo a um certo ritual que nunca ninguém soube, nem teve a curiosidade de esquadrinhar. Cada viagem era para tomar o peso, medir o tamanho e apalpar o pulso à freguesia. Pelo caminho encontrava só desprezo, escárnio e cobardia.

Nunca se soube o que o levava a mudar de cenário, optando por se transferir sem armas, nem bagagens, de uma terra para outra. Não se sabia como aquele ser humano passava o tempo, certamente sem se aborrecer, apesar do seu sempre infindo farniente. Talvez que o tempo fosse, para ele, um ponderável inexistente, assim conseguindo subtrair-se à sua acção erosiva e talvez fosse por isso que o seu relógio eram o Sol, a Lua e as Estrelas do firmamento. Para quê medir o tempo, se os dias eram todos iguaizinhos uns aos outros?

Nunca ninguém se deu conta de este corpo franzino, fruto de dias infindos e de noites mal dormidas, de cansaços e de fomes, ter estado de cama a curtir alguma doença. Se alguma vez esteve, nunca ninguém deu por isso ou se preocupou. Nunca constou que tivesse batido às portas de qualquer Hospital, Clínica ou Centro de Saúde, que tivesse consultado algum médico e, menos, que tivesse entrado a aviar-se em alguma farmácia. Apesar do seu aspecto enfermiço, magricela e desfalecido.

A sua presença dava à freguesia uma aura de estremecimento misterioso, inexplicável, a rescender a sobrenatural. Quando ele estava na aldeia parecia que a atmosfera do ar que se respirava continha em si qualquer sorte de mistela a que ninguém podia ficar indiferente.

Nunca se lhe ouviu um queixume, uma palavra ou atitude de desdém, talvez porque o seu constante silêncio foi uma atitude perene de escárnio e de desdém. E razões não lhe faltaram para se revoltar contra o desprezo e a injustiça dos homens. Efectivamente, nunca tendo conhecido o conforto de uma boa cama, muitas vezes passou os dias e as noites esquecido no desconforto de uma prisão sem condições dignas de uma pessoa humana, a cumprir penas ditadas no acto de transgressão/acusação: um pequeno cubículo de aldeia, sem luz, sem enxerga, sem qualquer espécie de arrimo que não fossem o chão e as paredes.

Não consta que alguma vez tivesse ido a tribunal reconhecer as suas culpas ou atestar a sua inocência. Por vezes, via-se na necessidade de cometer pequenos furtos para a sua sobrevivência. Como resposta, a justiça da aldeia surgia pronta para justiçar este pobre de Cristo, que se oferecia, qual mansa ovelha, sem resistência, nem queixume.

Podemos dizer que a vida deste infeliz era um contínuo martírio, tudo lhe falecendo na vida: falecia-lhe o doce aconchego familiar, faleciam-lhe os amigos, falecia-lhe o calor da amizade e da compreensão humanas e o suprimento da ajuda fraterna. Apontados contra ele como setas, só ódios, malquerenças, desprezos e punições. Em troca do seu silêncio, da sua inocência, do seu perdão.

Este retrato pretende ser uma homenagem póstuma e um acto de desagravo em favor de um homem que nos marcou quando éramos crianças, mas que pela nossa tenra idade, não tínhamos os sentimentos de compaixão nem o desejo de solidariedade que temos hoje, agravados, ainda, pelo facto de vivermos em ditadura que era forte com os fracos e fraca com os fortes.

OBSERVAÇÃO: Quando, num almoço de conterrâneos, eu descrevi a vida deste andarilho, tal como faço neste texto, e perguntei, no fim, a alguns que conheceram o Paralta, se tinham alguma coisa a discordar ou a acrescentar, eles responderam-me: «Era assim, tal e qual»

publicado por argon às 09:31
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