Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

SOCRASÍADAS

SOCRASÍADAS

 I

Os Varas e os barões assinalados,

Que da ocidental terra lusitana,

Por crimes nunca dantes perpetrados,

Passaram ainda além da gula humana,

E sem perigos nem guerras esforçados

Mais do que prometia a fraude humana,

Entre gente sem vergonha edificaram

Nova fortuna que tanto encorbertaram;

 II

E também as astúcias gloriosas,

Daqueles mandões que foram dilatando

O poder, o mando e as riquezas caudalosas

Do erário público andaram devastando;

E aqueles que por artimanhas gloriosas

Vão fazendo do roubo um memorando,

Cantando espalharei por toda a parte,

Se a tanto me ajudarem os deuses e a arte.

 III

Cessem da justiça e do esforço humano

As investigações pequenas que fizeram;

Cale-se de Salazar e de Caetano

As ditaduras longas que tiveram;

Que eu canto o descaramento lusitano

A quem nem a vergonha ou medo obedeceram!

Cesse tudo o que o alarme da suspeição canta,

Que outro valor mais democrático se alevanta!

 IV

Já no alto mar da ladroagem navegavam,

C’o as quietas e mansas águas ocultando;

Os ventos favoravelmente respiravam,

Com tramóias os bolsos côncavos inchando,

Da mais pacífica escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde os negócios vão prosperando,

Nas boas negociatas consagradas

Que do arco do poder são cortadas;

 V

Quando a Justiça no Olimpo luminoso,

Onde a democracia está da humana mente,

Se ajuntam em concílio clamoroso,

Sobre os negócios obscuros dessa gente,

Pisando o acesso escuro e tenebroso,

Vem pela caminho ínvio fazer frente

Convocados da parte do comandante

Pelo ‘boy’ agraciado e determinante.

VI 

Estava o Procurador sublime e dino,

Que julga os desvarios do povo insano,

Num assento de mil leis em escrutino,

Com um ar altivo, grave e soberano;

Do rosto respirava um ar sibilino

Que subilino tornara qualquer humano;

Com uma toga e ceptro rutilante

De outra forma mais linda que brilhante,

 VII

Em luzentes assentos, marchetados

De cor e luz fulgente, mais abaixo estavam

Os outros juízes todos assentados,

Como a ordem e as leis determinavam;

Precedem os antigos mais graduados,

Mais abaixo os mais novos se assentavam:

Quando o Procurador alto, assim dizendo,

C’um tom de voz começa grave e horrendo:

 VIII

Eternos companheiros do aqui  presente

Em cadeiras estofadas, neste  momento,

Se do grande valor da forte gente

De Luso não perdeis o pensamento,

Deveis de ter sabido claramente

Como é dos fados grandes certo intento,

Que por ela se esqueçam os Godinhos insanos

E os Penedos, os Soares, os Figos e outros humanos.

 IX

E disse assim: Ó supremo Juiz a cujo império

Tudo aquilo obedece que assinaste,

Se esta gente que busca essoutro minério

Cujo valor em milhões desencastraste,

Não queres que padeçam vitupério,

Como há já tanto tempo ordenaste,

Não confies mais no chefe e acusa a peito,

A quem todos pensam que é suspeito.

 X

E tu Pacheco de grande fortaleza

Da acusação que já tens tomada,

Não tornes por detrás pois é fraqueza

Desistir-se da coisa começada.

Os de Aveiro, que procedam em ligeireza

Com os processos tidos – que trapalhada!

Mandem ao chefe com toda a presteza

Os dossiês da acusação e da certeza.

 XI

Tão brandamente os ventos os levavam,

Como quem o céu tinha por amigo;

Sereno o ar e os tempos se mostravam,

Sem nuvens, sem receio de perigo,

A tormenta maior já eles passavam

Em todas as rotas do tempo antigo,

Quando a justiça descobrindo lhe mostrava

Novas suspeitas, que acusando o incriminava.

 XII

O chefão dos ‘boys’, o grande capitão,

Que a tamanha patranha se oferece,

De soberbo e altivo gesto qual aldrabão,

A quem a sorte e a justiça favorece,

Para ser incriminado não vê razão,

Que sem provas a Comissão lhe parece;

Por diante passar determinava:

E tudo lhe sucedeu como cuidava!

 XIII

Eis aparecem logo em companhia

Uns soberbos deputados que vêm daquela

Que mais chegada a prova parecia,

Procurando acabar com a querela:

A gente se alvoroça, e de alegria,

Não sabe mais que olhar a causa dela:

«Que gente será esta? – em si dizia –

Que costumes, que lei, que rei teria?»

 XIV

Está já do fado determinado,

Que das acusações tão afrontosas

Lidas por um Pacheco determinado,

Sejam tidas pelo Amaral mui belicosas.

E eu só, filho de açoreano  bem amado,

Com tantas qualidades generosas,

Hei-de sofrer que a verdade favoreça

Outrem, por quem meu nome se escureça?

 XV

Não será assim. Porque antes que a chegada

Seja do nosso capitão, manhosamente

Lhe será tanta sorte fabricada

Que nunca veja a condenação presente.

Eu não deixei divulgar o escriturado

E mandarei em toda esta gente.

Porque sempre por via irá direita,

Quem do oportuno tempo se aproveita.

publicado por argon às 23:22
link do post | comentar | favorito
|

.Argon

.pesquisar

 

.Maio 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

.arquivos

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

.favorito

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

blogs SAPO

.subscrever feeds