Sábado, 10 de Julho de 2010

O MUNDIAL DA ÁFRICA DO SUL - O REVERSO DA MEDALHA

A história é sempre escrita pelos vencedores. A coisa aplicada ao Mundial de 2010, rege-se pelas mesmas regras. Na verdade, só se louvam os vencedores, deixando no ocaso os vencidos que são todos menos um. É caso para dizer que vale mais a unidade do que o colectivo.

Toda a gente, com os meios de comunicação à cabeça, se desfaz em elogios ao campeão deste evento que acontece, de quatro em quatro anos. Viva o vencedor! Glória àquele que conseguiu, depois de muito ter suado, depois da eliminação sucessiva de todos os adversários, ficar em primeiro lugar!

E eu pergunto: e os perdedores? E aqueles, sem os quais não seria possível os vencedores ganharem? Isto é: aqueles que se ofereceram como vencidos, para que houvesse vencedor? A vontade de ganhar destes foi igual à dos adversários. Todos se sujeitaram às mesmas regras e cumpriram. Só que, por este ou aquele motivo, não conseguiram vencer. Costuma dizer-se que dos fracos não reza a história. Mas no futebol não há fracos, só chegaram à África do Sul os melhores, todos potenciais vencedores. Todas as equipas em campo jogaram de igual, para igual.

«Uma oportunidade, uma falha, um detalhe, um golo, uma vitória, uma eliminação.» Só isto!

E daí? Será caso para, perante a derrota, se incriminar o árbitro e/ou os jogadores, ou este ou aquele treinador? Bem basta, já, o facto de terem sido vencidos. E deve dizer-se, antes que seja tarde, que não é vergonha nenhuma as equipas irem para casa mais cedo do que desejariam, por terem sido eliminadas. São as regras do jogo que todos aceitaram. As equipas, todas as equipas se portaram com dignidade e deram o seu melhor para vencerem.

Normalmente, no futebol, costuma ter-se este comportamento: se a equipa perde, lançam-se todas as culpas para cima do seleccionador. Se a equipa vence, é a equipa que é muito boa e jogou muito bem. Mas que culpa tem o seleccionador de o Ronaldo, o novo D. Sebastião, o coleccionador de romances, o idolatrado, o pai da criança, coisa indiferente para o género humano, prerrogativa dada a qualquer mortal, sendo a única em que não é preciso prática, nem saber ler, nem apresentar qualquer papel ou documento para fabricação do produto – hão-de ver que os media hão-de inventar, - já começaram !, que, até na execução deste acto normal  ele houve genialidade, ter tido uma prestação apagada e, quando rematava era para fora da baliza ou para o poste? Lá por vir a sua imagem estampada em tudo o que é sítio e se fazerem a respeito dele os maiores prognósticos elogiosos, assim, como se ele não tivesse máculas de imperfeição e se dizerem os maiores dislates a seu respeito porque nada do que diziam se confirmou, terá ele obrigação de se comportar conforme todos vaticinavam, de forma a trazer a taça para Portugal? Ronaldo chegou à Covilhã num helicóptero, chegou ao aeroporto da Portela e, enquanto os companheiros seguiram de autocarro, em equipa, ele seguiu em automóvel particular. Nunca se integrou na equipa. Nem no campo, nem fora dele. E o brilho de Ronaldo apaga-se, obscurecendo toda a equipa. ‘O seu ego ilimitado nunca se disporá ao serviço de um colectivo que julga indigno de si e dos seus patrocínios’, mesmo sendo arvorado em capitão, para o que não teve perfil, como se viu.

O futebol é um jogo de equipa e não de um só jogador. O futebol não tem maneiras, não se rege por raciocínios silogísticos, não respeita a dignidade das equipas e não tem consideração pelo historial de triunfos que as acompanham.

Vejam só: caíram campeões do Mundo: Brasil, a selecção mais laureada com 5 troféus em mundiais. Itália, que soma 4. Argentina 2. A Inglaterra e a França 1.

Portugal ainda chegou aos oitavos de final. Mas foi cruel para os coreanos, metendo sete golos na baliza! Até o Ronaldo meteu golo! Não bastariam só três golos? Que ganharam em meter sete? É que, se tivéssemos sido menos ambiciosos, talvez o Grande Líder os tivesse poupado a um castigo que, possivelmente os esperou.

E a França? O que aconteceu? Não é de se estar solidário com uma equipa que sempre se bateu ao nível das melhores? A sorte não pode favorecer todos. É que, se não houver derrotados, não pode haver vencedores. É uma espécie de heterofagia, até ficar um só vencedor em campo, para gáudio do fanatismo desportivo. Em França houve interferência política na pós-derrota: a ministra do desporto puxou as orelhas à equipa e ao treinador. Coisa reprovável e intolerável. Agora, já não se pode perder? Todos têm que ganhar? A França tem que sair vencedora? Onde é que já se viu?

No nosso caso, houve críticas de Deco e de Nani ao treinador, o que pôs uma nota de desdouro na equipa que deixou de ser coesa e teria começado aí o nosso falhanço desportivo, em termos de ganho. Afinal, o treinador é, ou não, dono e senhor da equipa? Cada um deve saber ocupar o seu lugar e não invadir o dos outros e cumprir o melhor possível. Só isso!

Queiroz teve de ouvir das boas por chegar mais cedo com uma equipa derrotada. Eu sei que muitos o que têm é inveja dos euros que ele aufere: não sei quanto ganha, mas veio escrito que ele ganha mais num mês do que o Presidente da República num ano e 15 vezes mais por ano. Mas, em vez de inveja, deviam era ter orgulho por termos um treinador a ganhar tão bem, mais do que qualquer colega estrangeiro.

Mas devemos ser humildes e contentar-nos com a nossa pequenez em tudo, até nos resultados do futebol. O defeito foi termos levantado a fasquia tão alta.

Há quem queira que Queiroz, vinculado a um contrato desastroso, se demita. Ele diz que não se demite. Ao contrário de vários seleccionadores estrangeiros que, face aos resultados negativos, se demitiram. Assim, a Federação poupa – no poupar é que está o ganho! - 5 milhões  € e mais um milhão para férias e outras regalias, de Queiroz, que teria que lhe dar de indemnização só pelo gesto de se demitir. Só é pena que os empregados deste país em crise não possam gozar do mesmo estatuto, pedindo a sua demissão, - o país sairia logo da crise! Porque aumentava logo o poder de compra e o resto viria em cadeia.

Ninguém poderá discordar de tão grande bolo porque do futebol depende a grandeza e a salvação da pátria. Se tivéssemos trazido a taça aumentaria o astral dos portugueses que andam deprimidos pela voracidade da crise. Só por isso, valia a pena tê-la trazido.

O presidente da República pode ser acusado, como já foi Alegremente, pela crise em que vivemos, mas um seleccionador nunca deve ser responsabilizado pelos resultados negativos da equipa, nem que eles sejam ‘navegadores’. A culpa do desaire não terá que ser repartida por todos. Mas a vitória, essa, sim! Seria reclamada por todos os ‘navegadores’. O desastre terá que ser atribuída à embarcação, aos ventos contrários, ao encapelamento das águas, nunca ao capitão do navio e, menos, aos tripulantes.

Bem basta, já, a dor de alma das equipas eliminadas. Coitado do Maradona que mostrou a sua infinda tristeza (viu-se na Televisão), depois da derrota!

Bem andou o Governo japonês que medalhou o jogador Yuichi Komano, apesar de ter falhado a marcação de uma grande penalidade nos oitavos de final contra o Paraguai, que levou à eliminação do Japão do Mundial. E, enquanto Queiroz foi recebido no aeroporto por meia dúzia de gatos-pingados, em acenos e palavras sofridas de protesto, Maradona foi recebido e aclamado por 10 mil fãs, no aeroporto de Buenos Aires, em apoteose! ‘Bons Ares’, para um derrotado!

Um cantor famoso não pode falhar; um chefe de orquestra não pode falhar; uma orquestra não pode falhar; um pianista não pode falhar; um cantor de ópera não pode falhar; uma bailarina não pode falhar. Mas um jogador, mesmo nos relvados da África do Sul, pode falhar! Se não falhar, não há vencedor.

Moralidade da história: deixemo-nos de triunfalismos antes dos jogos, não sejamos tão acusadores e respeitemos o devir da história que nos diz que ganham os mais fortes, os melhores. Mas, sem adversários, não há triunfadores, sem a eliminação de todos menos um, não há selecção para receber a taça!

 

publicado por argon às 22:07
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