Domingo, 25 de Julho de 2010

ANIMAIS NOSSOS AMIGOS - 1 - O BURRO

 

De entre todos os animais domésticos que acompanham o homem nas suas andanças e labutas, o burro é um dos que mais se destacam. Só quem nunca precisou de se aproveitar dos seus prestimosos serviços é que não sabe dar valor a este animal que, embora de aspecto possa parecer feio ou menos benquisto e simpático, ele tem uma ‘alma’ cheia de qualidades ‘humanas’. Ele é muito serviçal, ele é muito humilde e muito manso, mas muito trabalhador e nunca se aborrece nem protesta contra os possíveis maus tratos que o dono, em momentos de fúria enraivecida, descarrega sobre ele.

É um óptimo companheiro de viagem, de trabalho, de transporte e o homem do campo serve-se dele para alombar com cargas, às vezes, desproporcionadas à sua medida e às suas forças. É bem verdadeira a expressão «burro de carga», para significar, simbolicamente, um homem que se presta a todos os serviços e trabalhos, sem protestos, nem queixumes.

Na minha terra, a maior parte dos casais , tantos os de muitas terras, como os de poucas ou nenhumas ou de poucos haveres, tinham ao seu serviço um asno que os acompanhava para todo o lado, tanto para serviço de carga, como de transporte. Nalguns casos, era quase um luxo e, às vezes, um sinal de orgulho, ser-se dono de um animal destes.

Ao longo dos tempos, o burro foi objecto de referência, ora jocosa, ora séria. No primeiro caso, conta-se que de todos os animais, quando receberam nome da parte de Noé na sua barca, houve apenas um que teve que voltar atrás, porque tinha esquecido o nome. Voltou a Noé a pedir a repetição do nome e este respondeu-lhe: «Já te disse: és burro!» Talvez, por isso, alguns vêm nele o símbolo  da ignorância e do esquecimento.

Por outro lado, a palavra ‘burro’, passou a ser sinónimo, na linguagem comum familiar, de ‘pouco inteligente’ ou ‘estúpido’. Assim, nas expressões correntes: ‘és burro!, ‘és burro como uma porta’, ‘és mesmo burrinho!’

 A expressão «orelhas de burro» que alguns professores do antigamente colocavam na cabeça dos alunos «burros», provém da lenda segundo a qual Apolo mudou as orelhas do rei Midas em «orelhas de burro», porque tinha preferido à música do templo de Delfos os sons da flauta de Pan. Esta preferência indica, em linguagem simbólica (as ‘orelhas e burro’), a busca das seduções sensíveis em vez da harmonia do espírito e a predominância da alma.

Para edificação e prazer, leia-se, com muito proveito o livro de José Régio «O Príncipe com Orelhas de burro».

Também se conta o caso da burra de Balaão que tinha o condão de emitir sons da fala. Um protestante pergunta a um católico, em ar me troça: «senhor católico, é verdade que a burra de Balaão falou?» O católico não perdeu tempo a responder-lhe: «eu não sei, senhor protestante; o que sei é que, enquanto a burra falou, Balaão esteve calado.» Aqui, a burra será o símbolo do conhecimento e da ciência tradicional, o que marca um progresso na concepção original negativa dos povos da Índia e do Egipto.

Jesus Cristo, na sua fuga apressada para o Egipto, para fugir à fúria mortífera de Herodes que, para apanhar o menino Jesus, decretou a morte de todas as crianças de dois anos para baixo, serviu-se de um burrico para acompanhar os pais José e Maria. Se Cristo quis sentar-se sobre uma jumenta, diz Richar de Saint-Victor, é para mostrar a necessidade da humildade.

A Biblia apresenta este animal como o símbolo da paz, da pobreza, da humildade, da paciência e da coragem – virtudes que tantas vezes faltam aos seus donos... Talvez, por isso, foi o animal preferido por Cristo para fazer a sua entrada triunfal em Jerusalém, antes da sua Paixão. E é um humilde animal que se honra de figurar no presépio ao lado de S. José e de sua mãe Maria, na companhia de uma vaquinha.

Sansão contribuiu para engrandecer uma qualidade física - a extrema dureza óssica do burro, que nunca ninguém antes, nem depois dele, testara. Com uma só queixada de burro, Sansão pôde matar mil inimigos, como se pode ler no Antigo Testamento.

A natureza foi de tal modo pródiga para com este humilde animal que, como se lhe não bastassem as qualidades que referimos, dos animais domésticos é o único cujo leite é doce, isto é, vem já açucarado de ‘fábrica’.

Aqui chegado, conto um caso que presenciei e que mostra não só todas as qualidades acima descritas, como a inteligência e sentido de orientação do burro: Tinha acabado de fazer a minha 4ª classe. E fui com o meu pai tomar o comboio à Cerdeira que dista da minha terra 30 quilómetros, que passava ali às 9 horas, com destino à Guarda. Saímos pelas quatro horas da manhã. Tínhamos uma burra de estimação de tantos anos que quase era uma instituição e quase fazia parte da família. Era a eterna companheira de meu pai que foi um grande andarilho viajando por terras, por feiras e mercados sem conta, tanto de noite, como de dia. No regresso, pelo negrume da noite, o meu pai, que conhecia aqueles caminhos todos de cor e salteados, quando chegámos a um cruzamento, teve dúvidas no caminho certo para chegarmos a casa. Então, ele disse: «já não estou certo no caminho, mas deixemos passar a burra à frente. Ela é que vai indicar-nos o caminho». E assim foi. A burra não teve a mínima dúvida sobre qual devia ser o nosso trajecto de regresso a casa. Avançou sem hesitação e nós seguimos atrás dela.

Lembro-me de muitos burros que havia na minha terra, mais nos tempos da minha infância e juventude. A partir da emigração, eles começaram a rarear. E hoje já são muito poucos e dá a impressão que é espécie em vias de extinção. Havia muitos donos que tratavam bem os seus animais: comida com fartura e bom trato familiar. Mas havia gente que os maltratava e, não raro, faziam recair sobre este humilde, prestimoso, serviçal e indispensável animal os traumas de que sofriam, atribuindo-lhe o papel de «passa-culpas» - talvez julgando-se, assim, mais aliviados. Se alguns animais domésticos podem ser acusados de «pecado», não é o burro, com toda a certeza.

Do cruzamento da burra com o cavalo, nasce a mula que não é uma coisa, nem outra.

Existem modismos ou rifões na língua portuguesa que têm o burro como animal de referência, tais como: ‘burro velho não aprende linguagem’; ‘vozes de burro não chegam ao céu’; ‘mais vale alimentar um burro a pão de ló’; ‘mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube’; ‘a albarda é que enfeita o burro’; ‘a albarda não pesa ao burro’; ‘depois de morto, cevada ao rabo’; ‘a pensar morreu um burro’.

Costuma, até, dar-se um ar de brejeirice à expressão ‘cor de burro quando foge’, preferindo outros levar a conversa para o trocadilho dizendo ‘cor de foge quando burro’. 

Há várias palavras sinónimas de burro, como por exemplo: asno, jumento – e sob a forma de diminutivo: burrinho, burrico, burrito, burreco, jumentinho; ou de aumentativo: burranca – burra grande e bem feita.

É curioso que o excremento do burro não é antipático nem mal-cheiroso, não é desagradável à vista nem asqueroso, ao contrário do dos restantes animais. O animal só tem, talvez, um contra: depois de morto, nada dele se aproveita – nem a ‘queixada’ como arma de ataque ou de defesa contra assaltantes ou inimigos.

Zurrar é lá com ele. Só que, desafina muito com uma voz de susto, aos solavancos, em compasso binário ficando, ao mesmo tempo, muito descomposto. Se tivesse que ir a concurso, não tenho dúvida que ficaria em último lugar. O que vale é que zurrar é lá com ele e é coisa que faz muito raramente. Por outro lado, o burro é, por natureza, um animal vagaroso, sem pressas. No entanto, nesta matéria, há duas espécies: os que são muito vagarosos, às vezes irritantes e os que são mais apressados e caminham mexendo as patas com um ritmo mais acelerado. 

O grande fabulista francês La Fontaine dedicou ao burro sete fábulas. O que mostra a grande importância que lhe merece este simpático animal.

Há uma raça de burros muito famosa – é o chamado ‘burro mirandês’ do Nordeste Transmontano que o fotógrafo Oliviero Toscani promoveu no Castelo de S. Jorge com uma exposição constituída por 50 painéis de grande formato (3x2 metros), patente durante vários meses,até 31 de Janeiro de 2006 com o objectivo de «dar a conhecer o burro das terras de Miranda, actualmente em vias de extinção». A coisa não se ficou só pela exposição fotográfica, mas o italiano colocou no terreno dez burros em carne e osso para que jovens e adultos pudessem vê-los, admirá-los e passear-se neles.

Hoje já há muito poucos animais destes. Mas, nem por isso, devemos deixar de enaltecer as suas qualidades. Cantemos, pois, um hino de louvor a estas humildes alimárias que andaram – algumas ainda andam, ao serviço dos homens da minha terra.

 

                                                                                                               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                             

 

 

 

 

publicado por argon às 12:41
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