Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

FALEMOS DE LIVROS

O ZÉ PORTUGA

 

 A BALANÇA DA JUSTIÇA

 

A notícia mais bombástica da
década:

Isaltino Morais, Presidente
da Câmara de Oeiras, foi preso.

– É a justiça a funcionar.

No dia seguinte:

A notícia mais bombástica de
toda a era democrática:

Isaltino foi solto.

– É a justiça a funcionar.

 

Isaltino na cadeia? ...

Era a justiça a funcionar;

No dia seguinte foi solto ...

- Pôs-se o povo a murmurar.

 

FALEMOS DE LIVROS

 

Tenho um amigo, ex-colega de profissão, com quem me relacionei desde há muitos anos e temos feito percursos paralelos
no campo literário, a ponto de termos alguns livros publicados em co-autoria. Há
vários anos, fundou um Jornal, assumiu o cargo de director, jornal de que eu era
o director-adjunto e o fomos durante treze anos e foi aprendendo à sua custa –
necessidade obriga - as técnicas da montagem de um jornal e a formatação de
textos a tal ponto que, hoje, é um especialista e faz a paginação de um livro a
uma ou a várias cores a brincar e com uma performance incrível.

Foi com estas ferramentas práticas
que ele aprendeu a cultivar que, com a ajuda dele, eu publiquei o meu último
livro que responde pelo nome de «A Catedral da Linha de Sintra» - a história de
um pedaço de vida (a minha)/ pelos outros em pedaços repartida /– onde relato,
no pormenor, como me tornei o nº2 do dono da obra para a construção de uma
Igreja, a Igreja Paroquial de Rio de Mouro, a que toda a comunicação social
começou, logo de início, a chamar «Catedral da Linha de Sintra», pela sua
grandiosidade e pela originalidade das suas linhas arquitectónicas. Devo dizer,
sem faltar à verdade, que nunca houve obra, em Portugal, que tivesse sido mais
publicitada pelos media que primavam
por inserir nas suas páginas, às vezes na primeira, os textos das notícias, as
reportagens e as entrevistas, incluindo as fotos, à medida que a obra ia
avançando. Trata-se do livro onde faço a descrição da construção dessa Igreja e
qual o contributo que eu dei para que fosse uma realidade – a realidade que
hoje é. Aí, desvendo os bastidores e as voltas que tivemos que dar para
angariar donativos (começámos sem um tostão), no espaço de três anos que durou
a sua construção, avaliada em setecentos mil contos, (na moeda antiga).

Mas tudo isto serve de
preâmbulo para dizer como é que, passados esses anos todos, com base nessas
experiências de escrita e, aproveitando a evolução das novas tecnologias,
publiquei este meu último livro. Ou seja, quais os passos, ou a falta deles,
que demos para que a obra visse a luz do dia. Há várias etapas a percorrer,
como em tudo na vida. E todas elas estão previamente harmonizadas e
hierarquizadas, uma não pode passar à frente da outra.

Então, foi assim: em primeiro
lugar tive que redigir o texto do livro em minha casa no mesmo computador
portátil em que estou escrevendo este texto, socorrendo-me, na maior parte, da
minha memória e consultado alguns documentos que tinha na minha posse (não
muitos). Do assento em que escrevo, por um simples clic, enviei todo o original, via Internet, para o email do meu colega sito no escritório onde
passa a maior parte do dia (daí o poder dizer, com propriedade, que a casa dele
é, apenas, o seu dormicílio); No dia
combinado, lá estava eu no escritório diante do computador dele, a orientar, enquanto
ele ia fazendo a paginação sem esquecer a capa, e colocando as fotos e as
cores. Em terceiro lugar, depois desta operação, através do telemóvel,
telefonámos à tipografia a pedir o orçamento do livro. Pouco depois, veio a
resposta pela mesma via. Seguidamente, através de um simples clic no send, depois de colocado o email
de destinatário, eis que o livro se encontra, passados uns momentos, na
tipografia para ser impresso. O livro, depois de montado na tipografia e feita
uma primeira impressão, é enviado para o escritório para o autor rever as
gralhas ou fazer alguma correcção de última hora. Como eu não estava no
escritório, o meu amigo envia-mo, via Internet, para minha casa, donde, depois
de revisto todo o texto, lhe dei luz verde para o reenviar à tipografia. A
tipografia, passados dois dias, informa-nos sobre o dia da saída do livro pedindo
ao autor, tudo via Internet, que indique o local de descarga. Na verdade, no
dia marcado, recebi em minha casa a quantidade de livros que tinha encomendado.
A bem dizer, só houve necessidade de levantar uma vez o c. do assento – foi
para ir ao multibanco fazer a transferência bancária do preço do livro. Todos
os (não) passos foram dados sem sairmos da cadeira em que estávamos sentados. Chamo
a isto um ‘milagre humano das novas tecnologias’.

Nada que se possa comparar
com a publicação dos meus últimos quatro livros, por ocasião das minhas bodas
de ouro matrimoniais. Para o conseguir, tive que correr Seca e Meca, tive que
suar as estopinhas, tive que calcorrear muitos caminhos e bater a muitas portas
e, no fim, fazer a síntese de que resultaram os livros citados.

E aqui, chagamos ao ponto. Costumo
dizer que escrever um livro não custa nada, o que custa e vendê-lo. Talvez isso
tenha levado a que aparecesse um fenómeno estranho: os jet-sets da nossa praça desataram todos a escrever livros, como se
escrever um livro seja uma coisa ao alcance de qualquer pessoa, mesmo famosa. A
verdade é que esses livros, por menos que valham, têm venda garantida, só pelo
simples facto de terem como nome de autor uma diva da moda, uma frequentadora
das colunas sociais, uma cara bonita da televisão ou um jogador de futebol. Para
contornar a dificuldade, alguns pedem a quem sabe que lhes escreva o livro, mas
o nome que figura no livro como autor é o tal famoso ou famosa.

Outras vezes, o autor é famoso
pelo número de obras e pela sua qualidade, apesar de a qualidade ser uma coisa
subjectiva. Muita gente embandeirou em arco com hossanas a Saramago pela publicação da sua obra «Caim». Na forma de
tratamento com que trata Deus e na maneira como encara a leitura dos textos sagrados
do Antigo Testamento, faz-me lembrar «A Velhice do Padre Eterno» de Guerra
Junqueiro, em verso, que o terá suplantado na liberdade de expressão e na ousadia.
(Junqueiro morreu arrependido de ter escrito semelhante obra).

Eu tinha a cabeça tão cheia
de loas a respeito deste livro que, uma noite, até sonhei com ele. Tinha
roubado a autoria a Saramago, sem que ninguém soubesse. Era o segredo mais bem
guardado. Eu queria publicá-lo e, por isso, bati a muitas editoras. Nenhuma se
dispôs a publicar o livro. A maior parte dizia, como resposta, que o livro não
tinha valor comercial, isto é, quem é que ia comprar um livro tão indecoroso
que blasfema contra Deus, a um autor completamente desconhecido e, portanto,
sem valor nenhum? Houve uma editora que me disse, depois de ter lido a primeira
frase: o senhor não mostre isto a ninguém, senão, ainda vai preso por ofensas
contra o Deus e contra a Bíblia. Outro aconselhou-me a queimá-lo nas chamas do
Inferno e disponibilizou-se para fornecer as chamas. Um outro senhor que se
dizia dono da empresa editora, telefonou para a polícia para me mandar prender
e eu, face à iminência de ser preso por ofensa ao bom nome de uma pessoa com P
grande e que eu, como autor e responsável, teimara em escrever sempre com letra
pequena, pensei em subornar o agente da autoridade, se porventura aparecesse. De
repente, vi-me na presença de um outro polícia, que se fazia acompanhar de um
mandato de captura em branco dos tempos do PREC com a acusação de «relapso
convicto e negativo», A seguir, vi-me no meio de uma grande procissão pela Rua
do Ouro, em Lisboa, a caminho do Terreiro do Paço onde ia ser julgado e
condenado pelo Santo Tribunal da Inquisição por atentado contra o acordo
ortográfico luso-brasileiro recentemente aprovado, pelo uso e abuso discrepante
dos sinais de pontuação, assim pervertendo o sentido bíblico dos textos do
Antigo Testamento, o que levava os cristãos a abjurar a fé dos cristãos da
igreja católica, apostólica, romana. E, sobretudo, pelo uso abusivo da
invocação do santo nome de Deus com letra minúscula, o que denotava uma grande
falta de respeito por Deus Criador de todo o Universo. Lá chagado, me relaxaram
à justiça secular dos inquisidores apostólicos que me acusaram de «herética
pravidade e apostasia» e culpado de práticas judaizantes, porque me entregara,
dizia a acusação, à «venenosa cizânia do judaísmo». Por fim, fui condenado a
ser «relaixado em carne à fogueira, enforcado e depois queimado».

Neste passo, comecei a
tre-tre-tre-tremer o que fez com que a minha mulher, espavorida com o estertor
da minha agonia, me deu um safanão tão forte, que atirou comigo para a realidade
do mundo em que houvera nascido e só depois de recomposto pude dar graças a Deus,
com letra maiúscula, por me ter livrado de uma morte tão ignominiosa. e
bendisse o seu santo nome que seja louvado pelos séculos dos séculos.

Mas voltemos a «Caim» de
Saramago: o desrespeito e azedume contra Deus são de tal ordem, que ele nunca
escreve a palavra ‘Deus’ com maiúscula. Uma saramaguice! Quando sabemos que ele
escrevia os nomes dos deuses pagãos da antiguidade clássica grega e romana
sempre com maiúscula! Mas como não era cristão, nem temente a Deus, querendo,
talvez, aproveitar-se da fama que granjeou ao ser laureado com o Prémio Nóbel, julgou
que tinha autoridade para criticar da forma como o fez, os textos sagrados do
Antigo Testamento e talvez tivesse tido a sensação de que, assim, ficaria com a
sua imagem mais enobrecida. Já não pode voltar atrás como desejava Junqueiro
porque, pouco tempo depois de ter escrito este livro, transpôs os espaços desta
vida e já se encontra na eternidade (a eternidade não é um tempo indeterminado:
é uma ausência de tempo).

Tudo para dizer que, se não
és conhecido, se não tens padrinhos, se não és famoso, ninguém te publica as
obras, por melhores que elas sejam.

É por isso que eu não gosto
da formiga!

*

*

publicado por argon às 23:13
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