Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

QUERO SER UMA TELEVISÃO

 

 

Antes de haver televisão, a vida caseira era totalmente diferente da vida de hoje.

A dona de casa que não tinha emprego, era a fada do lar e passava todo o santo

dia entregue às tarefasdomésticas e a cudar e educar os filhos. O marido, empregado,

 tinha saído logo pela manhã e regressava todos os dias a casa, com as crianças que tinha ido
buscar à escola, já a mulher tinha o jantar adiantado. Ele, entretanto, ou lia
o jornal do dia, ou um livro ou entretinha-se com as crianças, descendo ao
nível delas, brincando com elas e ajudando-as a fazer os trabalhos da escola.
Os que ajudavam a esposa eram, como ainda hoje, uma excepção.

Na altura do jantar, a família, enquanto ia comendo, ia conversando animadamente,

todos tendo um tempo para falar e dialogar. Era então que os pais se inteiravam da

vida da escola
dos filhos e não faltavam recomendações de aplicação aos estudos e regras de
bom comportamento e respeito pelos professores. As refeições tomavam-se sem
pressas e, aí palas 21 horas, eram horas de deitar as crianças porque, ao outro
dia, era preciso madrugar – às oito horas já elas tinham que estar na escola.

Com a mãe também empregada, a
vida desta era complicada porque as tarefas de casa não diminuiam e tudo tinha
que ser feito mais aceleradamente, entrando a mãe em estresse com facilidade,
dada a quantidade de tarefas a desenvolver.

 Com a chegada da televião, a vida de casa de
todos os lares deu uma volta de cento e oitenta graus. A princípio, julgou-se
que ela era uma bênção para ocupar os tempos livres de todos e para se cultivarem
e se distrairem. Só havia um canal e um aparelho em casa e, por vezes,
faziam-se guerras para disputar a primazia do interesse de cada um. As crianças
não se entendiam porque uma queria ver um programa, outra, outro. Os pais
tinham que intervir para porem um pouco de ordem na casa, coisa que nem sempre
se fazia pacificamente. É difícil congregar a família toda à volta da hora e da
mesa das refeições e, por vezes, estas deixam de se tomar à mesa em grupo, as
crianças gostam de ir vendo televisão e, contra a vontade dos pais, gostam de
ir comendo, para não perderem os programas da sua preferência.

Depois, com o rodar do tempo,
apareceram mais dois canais, aumentando a oferta, o que foi trazendo um pouco
mais de paz ao lar. Havia maior opção de escolhas de canais e de programas
porque havia vários postos de TV espalhados pela casa. Depois, começaram a
surgir as telenovelas, concursos, programas de entretenimento, a publicidade
foi ganhando novo impulso, a imaginação dos operativos diversifica as rubricas
dos programas e hoje estamos diante de uma ladra do tempo, um fascínio incontornável
para o bem e para o mal, Discutem-se os benefícios e os inconvenientes,
criticam-se os programas, mas toda a gente reconhece que a televisão, hoje, é
uma mandona, uma obsessão presente em cada lar durante as 24 horas do dia.

O problema que hoje se põe é
saber como é que cada telespectador consegue ver o maior número de programas do
seu agrado porque, se é verdade que há centenas de canais à disposição, também
é verdade que o tempo não é elástico e não dá para muito.

E chegamos ao ponto. A
televisão tirou o sossego, a harmonia, a familiaridade, consagra o egoismo, o
induvidualismo, o isolamento, a solidão, deixando para trás tudo o que era
união, entendimento, familiaridade, horários. Ninguém presta atenção a ninguém.
Os pais ligam pouco aos filhos, desculpam-se que não têm tempo, chegam a casa
cansados, porque a televisão destrói o elo que unia todos os elementos da
família. Cada um entrega-se ao seu programa favorito. Os filhos já não têm hora
certa de deitar e nunca concordam com as horas da deita aconselhadas pelos
pais. Todas as atenções estão concentradas na televisão, que é quem mais
ordena, lá em casa. O pai chega, liga a televisão e, se lhe não agrada o
programa escolhido, faz zapping e
busca um do seu agrado. A mãe chega, liga a televisão. Os filhos chegam, ligam
a televisão e escolhem o seu programa favorito. Os pais não ligam aos filhos, toda
a atenção é dada a esta caixa mágica que mudou os hábitos das pessoas.

A televisão ocupa um lugar de
tal modo elevado na economia familiar que se chega a divulgar a sua influência
e preponderância na vida familiar, como mostra a seguinte passagem:

-Quem manda lá em tua casa?

- Em minha casa, quem manda é
o meu pai, no meu pai manda a minha mãe, eu mando na minha mãe, em mim manda o
meu irmão mais novo e em todos quem manda é a televisão.

Nunca me hei-se esquecer: em
toda a minha vida só uma vez passei uma noite inteirinha de vigília, sem
dormir. Sempre julguei que houvesse algum tempo morto, mas não. Passámos a
noite toda a rezar. Quando pensava que, desta vez, iria haver um intervalo,
enganava-me, porque, mal acabávamos de rezar um terço, entrava pela porta
entreaberta uma senhora, na aldeia, que, sem pedir licença, introduzia mais um
terço, acrescentado-lhe as encomendações da sua devoção. E foi assim durante
toda a noite.

Os familiares de Lisboa, nos
quais me incluía, estiveram a velar o familiar falecido, numa aldeia do Norte. Os
familiares do Porto chegaram quase à hora do funeral. O cemitério distava 3
quilómetros e todos estiveram presentes nesta cerimónia fúnebre. Mas os do
Porto não ficaram até ao fim da cerimónia porque os miúdos que os acompanhavam queriam
chegar ao Porto (a 150 quilómetros distante), a horas de verem um programa de
televisão em episódios, famoso, para jovens, chamado «Fama». E os pais seguiram
direitinhos do cemitério para o Porto, com os jovens, sem se depedirem, para
não deixarem saudades.

E, aqui chegado, para
rematar, e darmos sentido ao título desta crónica, mudemos de registo e de
cenário, prosseguindo na mesma linha:

‘Na sala de aula,
a professora pediu aos seus alunos que fizessem uma redacção e que na mesma
expressassem o que queriam que Deus fizesse por eles.

Já em casa, e
quando corrigia as redacções dos seus alunos, deparou-se com uma que a deixou
muito emocionada.

O marido, nesse
momento, entrou na sala onde ela se encontrava e, vendo-a a soluçar,
perguntou-lhe:

- O que
aconteceu?

- Lê! – e passa-lhe
uma folha de papel para a mão. É a redacção de um aluno meu.

O marido pegou na
folha de papel que ela lhe entregara e começou a ler:

 

«Senhor, esta noite peço-te algo de muito
especial:

Transforma-me numa televisão!

Quero ocupar o espaço dela, viver como a
televisão da minha casa vive. Ter um lugar especial para mim e reunir a minha
família em redor.

Ser levado a sério quando falar...Ser o
centro de atenções e ser escutado sem interrupções ou perguntas.

Quero receber a mesma atenção que ela
recebe quando não funciona.

Ter a companhia do meu pai quando chega a
casa, mesmo que esteja cansado.

Que a minha mãe me procure, quando estiver
sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.

E, ainda, que os meus irmãos «briguem»,
para poderem estar comigo.

Quero sentir que a minha família deixa
tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo.

Por fim, que eu possa divertir a todos.

Senhor, não te peço muito...

Só te peço que me deixes viver com
intensidade o que qualquer televisão vive!»

 

Quando terminou a
leitura, o marido virou-se para a professora e disse:

- Meus Deus! Coitado
desse menino! Que pais ele tem!

A professora
olhou bem nos olhos do marido e, depois, baixou os olhos, dizendo, num
sussurro:

- Essa redacção
pertence ao nosso filho!

 

E tu, será que te
dedicas mais à televisão do que à tua família e aos teus filhos?

Medita no que
esta mensagem revela e corrige o que tiveres a corrigir, se for o caso.

Sê feliz em
família e projecta essa felicidade para o mundo’.

ARGON

 

 

 

publicado por argon às 17:29
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