Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

2 SONETOS: DE JOSÉ RÉGIO E DO ARGON

SONETO
             

Em memória de Aurélio Cunha Bengala


Surge Janeiro frio e pardacento,                                       Surge Março frio e pardacento.
Descem da serra os lobos ao povoado;                            Descem das ‘cunhas’ os ‘boys’ ao povoado,
Assentam-se os fantoches em São Bento                         Assentam-se os fantoches em S. Bento

E o Decreto da fome é publicado.                                      E o Decreto do PEC é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;                                      Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;                            Cresce a miséria ao povo amordaçado,
Mas os biltres do novo parlamento                                   Mas os biltres do PS em espavento
Usufruem seis contos de ordenado.                                  Juntam aos ‘bonus’ as benesses e o ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,                               E enquanto à fome o povo se estiola
Certo santo pupilo de Loyola,                                           Certo ‘boy’ ‘oculto’ e gabarola
Mistura de judeu e de vilão,                                              Mistura de mentiroso e de vilão,

 

Também faz o pequeno “sacrifício”                                   Também faz o pequeno ‘sacrifício’
De trinta contos – só! – por seu ofício                              De dois milhões/ano - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.                                   Receber a bem dele ... e da nação.

                                                                                           

                                                                                           

JOSÉ RÉGIO                                                                     ARGON

 

 

Soneto (quase inédito), escrito em 1969 no dia de uma reunião de antigos alunos.

Tão actual em 1969, como hoje. depois ainda dizem que a tradição não é o que era!!!

 

 

 

 

 

publicado por argon às 23:26
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AS BASES NA EDUCAÇÃO

Um jornal diário de referência optou fazer o seu editorial que titulou com esta afirmação:: «As bases são tudo na educação». Era a síntese perfeita do resultado ‘de um dos maiores estudos feitos no mundo sobre o ensino’. Trata-se de um estudo do PISA (Programme for International Student Assessment), começado em 2000, tendo examinado um milhão de alunos, oriundos de mais de 60 países.

O estudo conclui: ‘fica provado que é no investimento e na qualidade das bases que se encontram os pilares de um consistente sucesso educativo».

Concluímos que há uma organização internacional que demorou tantos anos a concluir o que é uma verdade do senso comum: que é no ensino básico que reside o futuro sucesso educativo e profissional, acrescento eu, dos alunos. E era preciso gastar tanto dinheiro durante tantos anos, com técnicos especializados, para se chegar a esta banalíssima e evidente conclusão? Trata-se de uma espécie de axioma ou verdade evidente que não carece de demonstração, nem precisa de ser lembrado aos pedagogos do nosso Ministério da Educação e que toda a gente aceita como verdadeiro. Embora todos saibamos que o Ministério da Educação parece ter-se esquecido deste axioma e não lhe tenha prestado a devida atenção. Na verdade, a acção dos pedagogos do ministério da Educação, a mando do Governo, desde há vários anos, tem apostado na degradação do ensino e da aprendizagem desta classe etária e não tem fomentado um ensino de qualidade, com base no rigor, na seriedade, na disciplina, na aquisição de automatismos e hábitos de trabalho, e na pedagogia da exigência. Pelo contrário, deu ao ensino básico uma estrutura que assenta na brincadeira e no facilitismo e tudo com vista a poder afirmar, em cada ano, através de estatísticas erradas, que Portugal tem tido melhor sucesso escolar do que tem tido, na verdade.

Artur Gonçalves

publicado por argon às 23:22
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FLOR, AS FLORES

 

Falemos, pois, hoje de flor de flores. FLOR – assim um singular colectivo, em nome de todas as flores do universo criado.

Ninguém fica indiferente diante de uma flor. Ou de um bouquet de flores. Porque a sua presença gera sentimentos indefiníveis, difusos, porque inebriam todo o ser que a contempla com um misto de fragrância e de mistério.

As flores são o manto com que a natureza se cobre para alegrar o mundo dos homens. São as flores, pela sua alacridade e variedade das suas cores, pela diferença das suas formas, de estilos e de perfumes que transformam este vale de lágrimas em fonte de alegrias e de optimismo.

É através das flores que os homens manifestam os seus sentimentos mais silenciosos e profundos, é com elas que eles mostram as excelências do seu coração. Elas são o intermediário privilegiado que faz a ponte entre quem oferece e quem recebe, num gesto de delicadeza e de ternura.

S. João da Cruz faz da flor a imagem das virtudes da alma, sendo o bouquet que as reúne a da perfeição espiritual.

Para Novalis, a flor é o símbolo do amor e da harmonia que caracteriza a natureza primordial. Identifica-se com o simbolismo da infância e, de certo modo, com o do estado edénico.

Outros identificam a flor com o elixir da vida; a floração é o retorno ao centro, à unidade, ao estado primordial.

A arte japonesa do arranjo de flores comporta um simbolismo muito especial: é o emblema do ciclo vegetal, resumo do ciclo vital.

A flor, as flores são o símbolo das nossas alegrias e, também, o das nossas tristezas.

São a manifestações das alegrias da vida e a das tristezas da morte. Elas são sempre iguais, não são tristes, nem alegres – são o que são. E podem ser o que cada um quiser. Elas servem para tudo significar, numa espécie de poliformismo significativo, plurívoco. Elas não falam, mas possuem uma linguagem silenciosa que toda a gente sabe ler nas circunstâncias omnímodas da vida.

Os sentimentos que despertam em nós não são passíveis de tradução: é o embevecimento, a interiorização silenciosa dos mais recônditos sentimentos. Uma espécie e enebriamento interior calado no mais fundo do nosso ser. Qualquer definição, qualquer palavra, fica sempre aquém daquilo que despertam. Por isso, o melhor é o silêncio, diante da contemplação.

publicado por argon às 23:20
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MILIONÁRIO FELIZ

 

Chama-se Karl Rabeder é austríaco e, após ter abdicado de uma luxuosa casa nos Alpes, agora, «livre e feliz», irá viver num pequeno apartamento, em Insbruck. «A minha ideia é ficar sem nada. Absolutamente nada. O dinheiro impede a felicidade.» e ele, o que mais deseja, é ser feliz. Foi com este objectivo que decidiu desfazer-se de toda a sua fortuna, a favor de organizações de caridade, para ajudar pessoas pobres na América Latina e Central. Com este objectivo, lançou no mercado uma luxuosa casa – com lago e sauna – e vista para os Alpes, outra numa propriedade de 17 hectares na Provença e um luxuoso Audi A8, tudo no valor de dois milhões de euros.

Afinal, trata-se de uma receita tão simples como isso. E a verdade é que anda muita gente à procura da felicidade e desespera sem a encontrar. Porque a felicidade exige renúncia e quantos é que estão dispostos a fazer como Karl Rabeder? É que ninguém está disposto a abdicar do que tem; pelo contrário, na sociedade de consumo em que estamos mergulhados, procura-se mais o TER (ter’ é poder) do que do SER.

Para dar resposta a esta angústia da humanidade, tem surgido no mercado livreiro uma panóplia de livros que promete a felicidade que, dizem eles, está ao alcance da mão. O que não é verdade.

Quem dera que muitos ricos do mundo imitassem este grande Homem. E resolver-se-ia uma das maiores discussões com que se tem debatido a humanidade: o que é a felicidade e como conseguir ser feliz?

Como se está vendo, trata-se de um caso pontual que resulta. Mas o problema da felicidade não se resolve com dinheiro, nem com o despojamento dele em favor de terceiros necessitados. Se assim fosse, haveria mais gente feliz do que há. O caso é muito menos simples. Mas todos nós deveríamos esforçar-nos mais por estarmos menos dependentes do vil metal que não traz a felicidade.

E termino com uma quadra de Afonso Lopes Vieira que vem na mesma linha:

 

Em pouco está, breve palavra diz

Todo o segredo que a ventura tem:

A melhor maneira de ser feliz

É a gente fazer feliz alguém.

 

 

publicado por argon às 23:08
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AS BASES NA EDUCAÇÃO

Um jornal diário de referência optou fazer o seu editorial que titulou com esta afirmação: «As bases são tudo na educação». Era a síntese perfeita do resultado ‘de um dos maiores estudos feitos no mundo sobre o ensino’. Trata-se de um estudo do PISA (Programme for International Student Assessment), começado em 2000, tendo examinado um milhão de alunos, oriundos de mais de 60 países.

O estudo conclui:‘fica provado que é no investimento e na qualidade das bases que se encontram os pilares de um consistente sucesso educativo».

Estamos perante uma organização internacional que demorou tantos anos a concluir o que é uma verdade do senso comum: que é no ensino básico que reside o futuro sucesso educativo e profissional, acrescento eu, dos alunos. Presume-se que o estudo não tenha chegado só a esta conclusão. Caso contrário, poderá perguntar-se: e era preciso gastar tanto dinheiro durante tantos anos, com técnicos especializados, para se chegar a esta banalíssima e evidente conclusão? Trata-se de uma espécie de axioma ou verdade evidente que não carece de demonstração, nem precisa de ser lembrado aos pedagogos do nosso Ministério da Educação e que toda a gente aceita como verdadeiro. Embora todos saibamos que o Ministério da Educação parece ter-se esquecido deste axioma e não lhe tenha prestado a devida atenção. Na verdade, a acção dos pedagogos do Ministério da Educação, a mando dos Governos, desde há vários anos, tem provocado a degradação do ensino e da aprendizagem desta classe etária e não tem fomentado um ensino de qualidade, com base no rigor, na seriedade, na disciplina, na aquisição de automatismos e hábitos de trabalho, e na pedagogia da exigência. Pelo contrário, tem dado ao ensino básico uma estrutura que assenta na brincadeira e no facilitismo e tudo com vista a poder afirmar, em cada ano, através de estatísticas erradas, que Portugal tem tido, ano após ano, melhor sucesso escolar.

 

publicado por argon às 22:58
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DECO FAZENDIO O PAPEL DA 'DECO'

 

 

TEXTO QUE O D. N. PUBLICOU HÁ DIAS:

 

A nossa selecção no Mundial de Futebol na África do Sul não se tem saído bem. Não há dúvida que entrou com o pé esquerdo. Talvez porque confia de mais nas suas qualidades, menosprezando o adversário.

Por outro lado, parece que há menos jogo e mais conversa. No terreno fala-se mais de trivialidades fora dos relvados, do que de futebol dentro das quatro linhas. O caso Deco que criticou o treinador e, depois, teve que emendar a mão, tendo que se desdizer e pedir desculpa, veio pôr uma nota de desdouro na selecção que só serve para acirrar os ânimos da equipa e fornecer matéria jornalística.

Talvez convenha aqui mostrar porque é que Mourinho é um bom treinador que obtém resultados fenomenais: uma situação como aquela que Deco protagonizou nunca poderia acontecer com Mourinho. Porque há respeito pelo treinador que, desde o início impôs as suas regras de ouro, para se poder ser campeão, e que cada um dos jogadores terá que saber cumprir. Repare-se que Mourinho, para funcionar e bem, não pode ser desautorizado ou criticado pelos directores do clube, nem muito menos pelos jogadores. Cada um deve saber ocupar o seu lugar, evitando invadir as competências alheias. Foi o que não aconteceu com Deco e Nani. Que quiseram ganhar notoriedade à custa do treinador, fazendo o papel da DECO. As críticas de jogadores ao treinador são um acto anti-desportivo que deve ser condenado sem remissão. Cada um deve saber ocupar o seu lugar.

publicado por argon às 22:52
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A BOYADA

 

Nunca, durante governo nenhum, houve tantos ‘boys’. O que são os boys? São aqueles portugueses que arranjaram um emprego á custa de cunhas, geralmente a expressão diz mais respeito aos políticos. Como sabemos, a maior parte do país que mexe vive á custa dos favores do Estado que, por sua vez, emprega por motivos políticos, milhares de pessoas, muitas delas sem qualificações que justifiquem o cargo que ocupam. O mais grave, no meio disto tudo, é a constatação de duas realidades. A primeira: eles são legião. Em segundo lugar, eles auferem ordenados milionários, obscenos que bradam aos céus. Então, nas empresas públicas do Estado, eles são aos pontapés e são escolhidos pela cor partidária e, por isso, devem toda a obediência ao «chefe».

O país debate-se com uma grave crise económica. Mas esta é só para a maior parte, os de mais fracos recursos. Mas há uma elite que vive à grande e à francesa. Esta elite é constituída por políticos, por quadros superiores do Governo, quadros das empresas públicas e dos Bancos. Os administradores desta maralha aufere ordenados de milhões em cada ano e, no fim, ainda repartem o bolo daquilo a que eles chamam lucros, mas que a crise internacional veio descobrir que os lucros eram eles que os inflacionavam para o bolo ser maior. Uma espécie de saque. E toda a gente sabe quem são estes senhores e andam por aí à vontade, sem um remorso e sem uma acusação.

Andam afadigados à procura de caça no «Face Oculta» e eles estão aí com a «face desoculta», na maior das calmas. Chegam a dar ‘show’ nas televisões e entrevistas nos jornais e, suspeitos ou denunciados pela comunicação social, todos dizem, sem excepção, que estão inocentes, que não têm nenhuma dor de consciência. Eles comportam-se assim porque sabem que não há justiça em Portugal, eles nunca serão julgados e muito menos condenados. E toda a gente sabe que assim é.

Mas, descendo mais ao pormenor e ao concreto, reparem o que está acontecendo na PT, embrenhada no caso «Face Oculta». O senhor Rui Pedro Soares, de 32 anos de idade, foi alcandorado a administrador da PT e do Taguspark. Não tem currículo para isso. Subiu à custa de se tornar um menino bonito, filiado na JS, e manteigueiro de José Sócrates a favor da imagem do qual fez uns biscates no computador que agradaram ao «chefe».

«Choca que José Sócrates não perceba que ninguém mais entende como é que se pode ganhar 2,5 milhões de euros por ano de ordenado, como administrador da PT, aos 32 anos de idade e sem currículo algum que não o de militante da JS». Este homem ganha num ano o que um técnico superior principal da Administração Pública (topo da carreira, depois de muitos estudos, exames, concursos, competentes) leva 20 (vinte) anos a ganhar.

O próprio Presidente da República precisaria de 8 (oito) anos no cargo, para juntar aquela verba. Um ‘mileurista’, isto é um empregado que ganhe mil euros por mês (há muitos licenciados que nem ganham isso), teria que viver 200 anos para ganhar tanto como este nababo da PT.

Ele vale 8 vezes menos do que um administrador da PT e os quadros da empresa não velem, sequer, um vigésimo.

Mas se este senhor, tantos outros semelhantes, deve receber muito mais do que isso, porque acumula empregos nas administrações de outras empresas.

Teve que sair da empresa por ser suspeito de corrupto, apanhado nas malhas do processo «Face Oculta». Mas a empresa apressou-se a dizer, não fôssemos nós esquecer, que ele continua a fazer parte dos quadros da empresa. O Vara está fora do BCP e saiu por motivos semelhantes. Mas, apertados a dizerem a verdade, mentem e não a dizem, refugiando-se no segredo de justiça. Porque estes e outros da sua igualha, sabem que não vai acontecer nada, porque não há justiça neste país para os grandes, só para os pequenos. Daí o eles dizerem que estão de consciência tranquila e negarem todas as acusações.

Estes são, apenas, dois casos gritantes. Mas há muitos mais. O Governo nomeou mais de mil e trezentos assessores disto e daquilo. E os administradores das empresas públicas ganham milhões e, quando saem da empresa, recebem uma indemnização milionária (o figurão da PT recebeu 600 mil euros) e são logo nomeados administradores de outra empresa, os que não são acusados de suspeitos de corrupção. E há, até, reformados destes com reforma milionária que têm mais três empregos. Como foram reformados com meia dúzia de anos de trabalho, e são considerados «boys», depressa são nomeados como administradores de outras empresas. E, muitos, quando saem para irem para a reforma, ou para outra empresa, recebem milhões de indemnização. E tudo são dinheiros nossos, públicos!

São gastos megalómanos do governo, no seu conjunto, gasta à tripa forra com ordenados, carros de alta cilindrada, assessores, despesas de estudos a peritos e advogados, etc., etc., um sorvedouro de dinheiros públicos. (Sabe quantos carros tem o Estado, ao seu serviço, com condutor, etc.? São só 28 mil! O gabinete de Sócrates, para dar o exemplo de despesismo, tem ao seu serviço 12 carros!)

Os deputados do Reino Unido não têm lugar certo onde sentar-se, nem têm computador, (custo do equipamento de informática: 2 milhões e 110 mil euros; subvenção aos partidos representados na Assembleia da República: 13 milhões e 506 mil euros;  subvenções estatais para campanhas eleitorais: 13 milhões e 798 mil euros. Diversos (???): 13 milhões e 506 mil euros. Total da despesa orçamentada da Assembleia da República: 192 milhões 450 mil 356 euros e 61 cêntimos). Os ingleses não têm gabinetes, nem secretários, nem assessores, nem automóveis, nem condutores. não têm residência e viagens pagas, se vivem fora de Londres, - pagam pela sua casa em Londres ou nas províncias, pagam todas as suas despesas, normalmente, como qualquer trabalhador, não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do Parlamento. E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública. O governo não alimenta escritórios de advogados, não tem «boys», nem favorece as grandes empresas de construção para obras públicas. É que eles são servidores do povo e não sanguessugas do mesmo.

Sabia que há uma deputada do PS, é deputada por Lisboa e mora em Paris? Se é deputada pela Europa, porque vem todas as semanas a Lisboa, o que custa aos contribuintes 5 mil euros por mês, viajando de avião em executiva, tudo à custa dos contribuintes? Chama-se Inês de Medeiros. E temos que estar contentes por estar a morar tão perto. Se escolhesse morar em Turquemenistão, na União Soviética, teríamos que lhe pagar muito mais. (Os deputados custam-nos, por ano, 12 milhões de euros).

 Na Noruega, o país mais próspero da Europa, os ministros não andam a passear-se em carros topo de gama, andam de metro. Não têm, nem querem TGV, só têm 200 quilómetros de estrada, não comemoram as suas datas emblemáticas com milhões de euros, como nós fazemos parta comemorar os 100 anos da República cujas comemorações nos vão custar cem milhões de euros. E os jogadores da Noruega nunca precisaram de pagar aos seus jogadores 400 salários mínimos por mês para que estes joguem à bola. E não há um excessivo peso do Estado nem as empresas andam à coca de subsídios do Estado. Mas este país é um país rico (porque sabe poupar e gastar).

Há dias estive na Inglaterra, onde percorri, por estrada, de carro 2.000 quilómetros e raramente via passar um carro topo de gama, quase tão raros como os corvos brancos, género Mercedes, BMW ou Audi. Então, Ferrari, não vi nenhum!

E vejam o estado a que isto chegou. E tudo isso, para quê?

Ouçamos o grito de revolta de uma senhora:

«Quero de volta a minha dignidade, a minha paz, a minha liberdade.

Quero de volta a lei e a ordem.

Quero liberdade e segurança.

Quero tirar as grades da minha janela.

Quero políticas, não quero hipócritas.

Quero sentar-me na calçada e estar de porta aberta nas noites de verão.

Quero a rectidão de carácter, a cara limpa e os olhos nos olhos.

Quero honestidade como motivo de orgulho.

Quero esperança e alegria.

Quero discordar do absurdo e da mentira em que vivemos.

Abaixo o «TER», viva o «SER!»

Artur Gonçalves

ADENDA que veio de um outro artigo meu:

António Champalimaud deixou em testamento para a fundação com o seu nome 500 milhões de euros (100 milhões de contos) para a investigação em medicina.( investigação na área da visão e trabalhos no terreno, em países em desenvolvimento de combate à cegueira e doenças dos olhos. !ª edição em 2008.

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publicado por argon às 22:50
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A ESTRADA MAIS BEM SINALIZADA DO PAÍS

Uma grande preocupação tem invadido todo o país por causa do elevado número de casos de sinistralidade nas nossas estradas. E com toda a razão. Basta ver todos os dias os noticiários da televisão e os títulos da comunicação social escrita para confirmarmos esta dura e trágica realidade. Os números são assustadores. Todos os dias morre gente nas nossas estradas. Portugal ocupa, neste aspecto, um dos lugares cimeiros, em termos de sinistralidade, na Europa civilizada. As entidades fiscalizadoras não se cansam de reforçar as brigadas de trânsito por ocasião de férias, de pontes ou de fins-de-semana prolongados. Os resultados parecem ser cada vez mais alarmantes. A verdade é que ninguém possui a varinha mágica para minimizar a situação. Toda a gente dá sentenças sobre as maneiras mais eficazes de estancar esta sangria desatada. Tudo parece permanecer como dantes, senão pior.

Todos apontam como uma das causas mais responsáveis pela hecatombe rodoviária a falta de sinalização ou a sinalização deficiente. E a verdade é que grande parte dos acidentes se deve a esta anomalia. «Fiscalização de sinalização em estudo há um ano» – titulava na primeira página o «Jornal de Notícias» do dia 19.08.01. O que prova que o Governo reconhece a necessidade de uma revisão profunda da sinalização.

Hoje, para enaltecer um caso raro nesta matéria, apraz-me trazer para esta coluna o resultado do que me foi dado verificar numa estrada do concelho de Sabugal, aquando de uma visita relâmpago que fiz à minha terra natal – Alfaiates, - uma povoação do (nosso) concelho de Sabugal.

A estrada a que me refiro é a que liga Vilar Formoso a Alfaiates, numa extensão de 24 quilómetros. É ver para crer. Apenas com três sinaléticas diferentes, fica esclarecido todo o trajecto da via: a proibição de ultrapassar, o respectivo fim de proibição e a sinalização de curva perigosa com setas bem vivas e bem postas, a dar a extensão da curva em número de uma, duas ou três, no máximo. O condutor, se seguir escrupulosamente os sinais rodoviários e se observar os limites de velocidade, pode conduzir sua máquina sem perigo. As rectas, sendo todas de pequena extensão e sendo as curvas pouco pronunciadas, quase poderíamos dizer que houve excesso de zelo na proliferação de tal sinalização. Mas, quando se trata de questões de segurança, nada é demais. 

É verdade que a estrada desliza numa superfície plana. Mais uma razão para os aceleras se afoitarem, acelerando desabridamente. No entanto, se cumprirem as regras claramente estampadas ao longo do percurso verificarão que têm a seus pés uma estrada com a maior garantia de segurança. Para os condutores que duvidarem do que deixo escrito, aconselho-os a fazerem a viagem de dia. Para os  ainda mais incrédulos, aconselho-os a fazerem-na de noite e verificarão, tanto pela maior luminosidade dos sinais, como  pela proliferação dos mesmos, que é verdade o que afirmo.

Mesmo quando as curvas são de pequeno ângulo, o automobilista é informado do espaço a partir do qual pode acelerar sem perigo, porque transpôs a curva e se lhe segue uma recta sem lomba. Então, naquelas que obrigam a uma tripla sinalização, o desenho da estrada é de tal ordem que, num breve relance de vista,  o condutor fica de posse de todos os elementos de segurança para poder avançar sem receio, nem perigo, porque todas as curvas são precedidas do sinal de proibição de ultrapassar, seguidas das setas e do sinal de fim de proibição de ultrapassagem.

Atrevo-me a dizer que, tanto o traçado como a sinalização desta via podem servir de modelo a outras estradas do país, - tão deficientemente traçadas e sinalizadas.

Para a diminuição dos sinistros nas nossas estradas, é imprescindível que o senhor automobilista cumpra as regras ou sinais que vão sendo assinalados ao longo das vias. O que não acontece, normalmente. Infelizmente, o condutor, – o condutor português, pois é dele que se trata, o que quer não é chegar, mas chegar depressa, passando pelos sinais de trânsito, sem os ler e muito menos com a intenção de os cumprir, procurando ultrapassar tudo e todos, a todo o custo. Daí que se possa aplicar ao condutor português em geral a seguinte definição de Wood Allen: «o condutor perigoso é aquele que vos ultrapassa, apesar de todos os vossos esforços para o impedir».

A terminar, deixo a seguinte máxima tanto para os aceleras, como para os outros: mais vale perder um minuto na vida, do que perder a vida por um minuto.

 

 

 

 

publicado por argon às 22:27
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Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

O PARALTA - UM RETRATO A CORPO INTEIRO

Ninguém sabia o seu nome de baptismo, talvez porque não foi baptizado. Ninguém sabia onde nem quando nasceu. Muito menos quem eram os seus progenitores. Conheci-o já na sua idade de adulto, era eu ainda criança, este andarilho da triste figura.

Era alto, de magras carnes, de uma certa beleza apolínea – daí, talvez a alcunha, sempre trajando da mesma forma: um par de calças cinco centímetros acima dos tornozelos, uma camisa velha e enxovalhada e um casaco mal aparado e, por vezes, um chapéu, uns pés compridos, sem meias, enfiados nuns sapatos velhos que, em novos, deviam ter ficado bem a quem lhos deu. Cabelo geralmente curto e desgrenhado, dava mostras de nunca ter visto pente, tinha uns olhos faiscantes, de olhar penetrante que amedrontava tudo e todos quando calhava de mostrar-se em passagem rápida e cadenciada, nas suas raras passagens pelas ruas da freguesia.

Não possuía bilhete de identidade, nem qualquer documento de identificação. Não pagava impostos porque não tinha nada de seu, apenas, como S. João de Deus, os palmos da estrada que ia pisando. Não pagava renda de casa porque não tinha casa, nem sítio costumeiro em que se refugiasse, de dia ou de noite. Era uma espécie de fantasma em figura de gente, um vagamundo, sem eira nem beira, nem ramo de figueira. Andava sempre a pé, sempre com o mesmo fato e nunca ninguém o viu a pedir boleia ou a deslocar-se em qualquer meio de transporte. Nunca exerceu nenhuma profissão. Presume-se que não sabia ler nem escrever, sendo um analfabeto puro na verdadeira acepção da palavra, pois nunca ninguém lhe viu nenhum escrito nas mãos que, por norma, andavam sempre desocupadas. As suas malas e bagagens estavam sempre em estado de prontidão, pois deslocava-se sempre desprovido fosse do que fosse. Nunca foi visto a trabalhar. Nunca teve dinheiro consigo até por nunca ter precisado dele e duvida-se que o soubesse contar.

O sentimento de posse que é um dos apanágios mais característicos, marcantes e sagrados da grandeza humana, estava nele em grau zero, pois não era senhor ou detentor de nada. O mesmo se diga da ambição que obriga uma pessoa a caminhar em frente.

Sociabilidade, nenhuma. Nunca ninguém o vira acompanhado ou a conversar fosse com quem fosse. Também ninguém podia arrogar-se da dita de o ter visto a rir. A sua cara demonstrava um homem sisudo, naturalmente calejado pelos desconcertos do mundo, sempre muito sorumbático e circunspecto. Chorar, não se sabe se alguma vez chorou, podendo aventar-se a hipótese de nunca ter derramado uma lágrima. Não é que não tivesse razões de sobejo para isso, face às injúrias e injustiça que iam caindo sobre ele. Apesar disso, nunca se queixou da sorte e a sua consciência nunca o teria acusado de nenhuma falta e sempre o inocentou.

As crianças temiam-no e fugiam dele como o diabo da cruz, os jovens escarneciam dele, mas só de longe, lançando-lhe, alguns mais atrevidotes, mas com a retaguarda de retirada em mira, escondendo-se em seguida, o inocente labéu de «olha o bicho!» ou: «cascarão!». Os mais adultos ignoravam-no pura e simplesmente.

Ninguém sabia onde ele dormia, nem como se sustentava aquela figura esbelta em figura de gente. Jamais houve alguém que se pudesse gabar de ter tido, ao menos, dois dedos de conversa com ele. Ninguém sabia qual a natureza, nem o timbre da sua voz. Mas todos admiravam as excelências harmoniosas do seu canto quando, na escura calada da noite e na intermitência do sono, julgavam estar a ouvir alguma voz de querubim da corte celestial.

O seu rol de povoações que visitava, talvez sob um critério criteriosamente definido, circunscrevia-se a um raio de cinco quilómetros e as terras visitadas eram ciclicamente as mesmas. Mas Alfaiates, minha terra de nascimento, do concelho do Sabugal, exerceu sempre sobre ele um certo fascínio, com base no facto de ser a terra mais visitada, pois era a terra onde ele permanecia com mais demora e assiduidade, embora nunca tivesse assentado arraiais em terra nenhuma. Nunca ninguém soube explicar porquê. Quando estava, várias vezes percorria as ruas da freguesia uma abaixo, outra acima, naquele seu ar de solitário, guiado, não se sabe, por que estrela, mas sempre com as horas marcadas e os passos sempre medidos e obedecendo a um certo ritual que nunca ninguém soube, nem teve a curiosidade de esquadrinhar. Cada viagem era para tomar o peso, medir o tamanho e apalpar o pulso à freguesia. Pelo caminho encontrava só desprezo, escárnio e cobardia.

Nunca se soube o que o levava a mudar de cenário, optando por se transferir sem armas, nem bagagens, de uma terra para outra. Não se sabia como aquele ser humano passava o tempo, certamente sem se aborrecer, apesar do seu sempre infindo farniente. Talvez que o tempo fosse, para ele, um ponderável inexistente, assim conseguindo subtrair-se à sua acção erosiva e talvez fosse por isso que o seu relógio eram o Sol, a Lua e as Estrelas do firmamento. Para quê medir o tempo, se os dias eram todos iguaizinhos uns aos outros?

Nunca ninguém se deu conta de este corpo franzino, fruto de dias infindos e de noites mal dormidas, de cansaços e de fomes, ter estado de cama a curtir alguma doença. Se alguma vez esteve, nunca ninguém deu por isso ou se preocupou. Nunca constou que tivesse batido às portas de qualquer Hospital, Clínica ou Centro de Saúde, que tivesse consultado algum médico e, menos, que tivesse entrado a aviar-se em alguma farmácia. Apesar do seu aspecto enfermiço, magricela e desfalecido.

A sua presença dava à freguesia uma aura de estremecimento misterioso, inexplicável, a rescender a sobrenatural. Quando ele estava na aldeia parecia que a atmosfera do ar que se respirava continha em si qualquer sorte de mistela a que ninguém podia ficar indiferente.

Nunca se lhe ouviu um queixume, uma palavra ou atitude de desdém, talvez porque o seu constante silêncio foi uma atitude perene de escárnio e de desdém. E razões não lhe faltaram para se revoltar contra o desprezo e a injustiça dos homens. Efectivamente, nunca tendo conhecido o conforto de uma boa cama, muitas vezes passou os dias e as noites esquecido no desconforto de uma prisão sem condições dignas de uma pessoa humana, a cumprir penas ditadas no acto de transgressão/acusação: um pequeno cubículo de aldeia, sem luz, sem enxerga, sem qualquer espécie de arrimo que não fossem o chão e as paredes.

Não consta que alguma vez tivesse ido a tribunal reconhecer as suas culpas ou atestar a sua inocência. Por vezes, via-se na necessidade de cometer pequenos furtos para a sua sobrevivência. Como resposta, a justiça da aldeia surgia pronta para justiçar este pobre de Cristo, que se oferecia, qual mansa ovelha, sem resistência, nem queixume.

Podemos dizer que a vida deste infeliz era um contínuo martírio, tudo lhe falecendo na vida: falecia-lhe o doce aconchego familiar, faleciam-lhe os amigos, falecia-lhe o calor da amizade e da compreensão humanas e o suprimento da ajuda fraterna. Apontados contra ele como setas, só ódios, malquerenças, desprezos e punições. Em troca do seu silêncio, da sua inocência, do seu perdão.

Este retrato pretende ser uma homenagem póstuma e um acto de desagravo em favor de um homem que nos marcou quando éramos crianças, mas que pela nossa tenra idade, não tínhamos os sentimentos de compaixão nem o desejo de solidariedade que temos hoje, agravados, ainda, pelo facto de vivermos em ditadura que era forte com os fracos e fraca com os fortes.

OBSERVAÇÃO: Quando, num almoço de conterrâneos, eu descrevi a vida deste andarilho, tal como faço neste texto, e perguntei, no fim, a alguns que conheceram o Paralta, se tinham alguma coisa a discordar ou a acrescentar, eles responderam-me: «Era assim, tal e qual»

Artur Gonçalves.

publicado por argon às 18:23
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Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

O PARALTA

O     P  A  R  A  L  T  A

 

UM RETRATO A CORPO INTEIRO

 

Ninguém sabia o seu nome de baptismo, talvez porque não foi baptizado. Ninguém sabia onde nem quando nasceu. Muito menos quem eram os seus progenitores. Conheci-o já na sua idade de adulto, era eu ainda criança, este andarilho da triste figura.

Era alto, de magras carnes, de uma certa beleza apolínea – daí, talvez a alcunha, sempre trajando da mesma forma: um par de calças cinco centímetros acima dos tornozelos, uma camisa velha e enxovalhada e um casaco mal aparado e, por vezes, um chapéu, uns pés compridos, sem meias, enfiados nuns sapatos velhos que, em novos, deviam ter ficado bem a quem lhos deu. Cabelo geralmente curto e desgrenhado, dava mostras de nunca ter visto pente, tinha uns olhos faiscantes, de olhar penetrante que amedrontava tudo e todos quando calhava de mostrar-se em passagem rápida e cadenciada, nas suas raras passagens pelas ruas da freguesia.

Não possuía bilhete de identidade, nem qualquer documento de identificação. Não pagava impostos porque não tinha nada de seu, apenas, como S. João de Deus, os palmos da estrada que ia pisando. Não pagava renda de casa porque não tinha casa, nem sítio costumeiro em que se refugiasse, de dia ou de noite. Era uma espécie de fantasma em figura de gente, um vagamundo, sem eira nem beira, nem ramo de figueira. Andava sempre a pé, sempre com o mesmo fato e nunca ninguém o viu a pedir boleia ou a deslocar-se em qualquer meio de transporte. Nunca exerceu nenhuma profissão. Presume-se que não sabia ler nem escrever, sendo um analfabeto puro na verdadeira acepção da palavra, pois nunca ninguém lhe viu nenhum escrito nas mãos que, por norma, andavam sempre desocupadas. As suas malas e bagagens estavam sempre em estado de prontidão, pois deslocava-se sempre desprovido fosse do que fosse. Nunca foi visto a trabalhar. Nunca teve dinheiro consigo até por nunca ter precisado dele e duvida-se que o soubesse contar.

O sentimento de posse que é um dos apanágios mais característicos, marcantes e sagrados da grandeza humana, estava nele em grau zero, pois não era senhor ou detentor de nada. O mesmo se diga da ambição que obriga uma pessoa a caminhar em frente.

Sociabilidade, nenhuma. Nunca ninguém o vira acompanhado ou a conversar fosse com quem fosse. Também ninguém podia arrogar-se da dita de o ter visto a rir. A sua cara demonstrava um homem sisudo, naturalmente calejado pelos desconcertos do mundo, sempre muito sorumbático e circunspecto. Chorar, não se sabe se alguma vez chorou, podendo aventar-se a hipótese de nunca ter derramado uma lágrima. Não é que não tivesse razões de sobejo para isso, face às injúrias e injustiça que iam caindo sobre ele. Apesar disso, nunca se queixou da sorte e a sua consciência nunca o teria acusado de nenhuma falta e sempre o inocentou.

As crianças temiam-no e fugiam dele como o diabo da cruz, os jovens escarneciam dele, mas só de longe, lançando-lhe, alguns mais atrevidotes, mas com a retaguarda de retirada em mira, escondendo-se em seguida, o inocente labéu de «olha o bicho!» ou: «cascarão!». Os mais adultos ignoravam-no pura e simplesmente.

Ninguém sabia onde ele dormia, nem como se sustentava aquela figura esbelta em figura de gente. Jamais houve alguém que se pudesse gabar de ter tido, ao menos, dois dedos de conversa com ele. Ninguém sabia qual a natureza, nem o timbre da sua voz. Mas todos admiravam as excelências harmoniosas do seu canto quando, na escura calada da noite e na intermitência do sono, julgavam estar a ouvir alguma voz de querubim da corte celestial.

O seu rol de povoações que visitava, talvez sob um critério criteriosamente definido, circunscrevia-se a um raio de cinco quilómetros e as terras visitadas eram ciclicamente as mesmas. Mas Alfaiates, minha terra de nascimento, do concelho do Sabugal, exerceu sempre sobre ele um certo fascínio, com base no facto de ser a terra mais visitada, pois era a terra onde ele permanecia com mais demora e assiduidade, embora nunca tivesse assentado arraiais em terra nenhuma. Nunca ninguém soube explicar porquê. Quando estava, várias vezes percorria as ruas da freguesia uma abaixo, outra acima, naquele seu ar de solitário, guiado, não se sabe, por que estrela, mas sempre com as horas marcadas e os passos sempre medidos e obedecendo a um certo ritual que nunca ninguém soube, nem teve a curiosidade de esquadrinhar. Cada viagem era para tomar o peso, medir o tamanho e apalpar o pulso à freguesia. Pelo caminho encontrava só desprezo, escárnio e cobardia.

Nunca se soube o que o levava a mudar de cenário, optando por se transferir sem armas, nem bagagens, de uma terra para outra. Não se sabia como aquele ser humano passava o tempo, certamente sem se aborrecer, apesar do seu sempre infindo farniente. Talvez que o tempo fosse, para ele, um ponderável inexistente, assim conseguindo subtrair-se à sua acção erosiva e talvez fosse por isso que o seu relógio eram o Sol, a Lua e as Estrelas do firmamento. Para quê medir o tempo, se os dias eram todos iguaizinhos uns aos outros?

Nunca ninguém se deu conta de este corpo franzino, fruto de dias infindos e de noites mal dormidas, de cansaços e de fomes, ter estado de cama a curtir alguma doença. Se alguma vez esteve, nunca ninguém deu por isso ou se preocupou. Nunca constou que tivesse batido às portas de qualquer Hospital, Clínica ou Centro de Saúde, que tivesse consultado algum médico e, menos, que tivesse entrado a aviar-se em alguma farmácia. Apesar do seu aspecto enfermiço, magricela e desfalecido.

A sua presença dava à freguesia uma aura de estremecimento misterioso, inexplicável, a rescender a sobrenatural. Quando ele estava na aldeia parecia que a atmosfera do ar que se respirava continha em si qualquer sorte de mistela a que ninguém podia ficar indiferente.

Nunca se lhe ouviu um queixume, uma palavra ou atitude de desdém, talvez porque o seu constante silêncio foi uma atitude perene de escárnio e de desdém. E razões não lhe faltaram para se revoltar contra o desprezo e a injustiça dos homens. Efectivamente, nunca tendo conhecido o conforto de uma boa cama, muitas vezes passou os dias e as noites esquecido no desconforto de uma prisão sem condições dignas de uma pessoa humana, a cumprir penas ditadas no acto de transgressão/acusação: um pequeno cubículo de aldeia, sem luz, sem enxerga, sem qualquer espécie de arrimo que não fossem o chão e as paredes.

Não consta que alguma vez tivesse ido a tribunal reconhecer as suas culpas ou atestar a sua inocência. Por vezes, via-se na necessidade de cometer pequenos furtos para a sua sobrevivência. Como resposta, a justiça da aldeia surgia pronta para justiçar este pobre de Cristo, que se oferecia, qual mansa ovelha, sem resistência, nem queixume.

Podemos dizer que a vida deste infeliz era um contínuo martírio, tudo lhe falecendo na vida: falecia-lhe o doce aconchego familiar, faleciam-lhe os amigos, falecia-lhe o calor da amizade e da compreensão humanas e o suprimento da ajuda fraterna. Apontados contra ele como setas, só ódios, malquerenças, desprezos e punições. Em troca do seu silêncio, da sua inocência, do seu perdão.

Este retrato pretende ser uma homenagem póstuma e um acto de desagravo em favor de um homem que nos marcou quando éramos crianças, mas que pela nossa tenra idade, não tínhamos os sentimentos de compaixão nem o desejo de solidariedade que temos hoje, agravados, ainda, pelo facto de vivermos em ditadura que era forte com os fracos e fraca com os fortes.

OBSERVAÇÃO: Quando, num almoço de conterrâneos, eu descrevi a vida deste andarilho, tal como faço neste texto, e perguntei, no fim, a alguns que conheceram o Paralta, se tinham alguma coisa a discordar ou a acrescentar, eles responderam-me: «Era assim, tal e qual»

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