Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

UMA HISTÓRIA ABENSONHADA

O meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela minha amiga que certo dia fui visitar e encontrei doente, sozinha, deitada naquela cama do hospital, possuída de uma tristeza tal, dissesse: «ai, meu Deus, que história tão engraçada! Nunca eu ouvi contar uma história tão engraçada!» E se pusesse a rir, rir, rir, a bandeiras despregadas e eu a visse, então, possuída de uma alegria infinda como se respirasse saúde por todos os seus poros.

E ela transmitisse a minha história à enfermeira de serviço e esta se pusesse a rir tão de vontade que pegasse num lenço para enxugar as lágrimas e dissesse: «esta história é mesmo engraçada! De entre tantas que tenho ouvido, nunca ouvi nenhuma tão engraçada!» E esta a contasse aos colegas e ao médico assistente e este a achasse tão engraçada, que não foi preciso pedir-lhe que a contasse aos colegas. E estes a contaram aos seus parentes mais chegados de forma que a minha história, a breve trecho, num curto espaço de tempo e num largo espaço de lugares e circunstâncias, fazia as delícias dos passatempos de muita gente.
Que um casal desavindo, ao ouvir a minha história, se tivesse reconciliado e reatado a sua antiga relação amorosa, num clima de perfeito apaziguamento e duradoira normalidade.
E aquele polícia, depois de lhe terem contado a história, acudindo-lhe esta enquanto estava de serviço, rasgou o papel da multa e disse, em tom de conselho: «vá em paz e, para a outra vez, tenha mais cuidado!»
Que nas prisões a minha história chegasse tão fascinante de graça, tão colorida, tão pura e luminosa que os presos passassem a ter um comportamento mais humano e mais jovial, aceitando, resignadamente, a sua condição de reclusos e facilitando o trabalho dos guardas.
Que a minha história chegasse ao Parlamento e provocasse um clima de camaradagem tal, que levasse os deputados a aprovarem uma lei de protecção aos mais carenciados, tendo votado todos, pela primeira vez, em unanimidade.
Que um velho de muitos anos dissesse: «meu Deus, que história tão engraçada! Nunca em minha vida ouvi contar uma história tão engraçada e divertida! Valeu a pena viver estes anos todos para ouvir contar uma história assim, que nos dá força, coragem e saúde para vivermos muitos e bons anos de nossas vidas! Uma história assim só pode ter sido inventada por algum anjo vindo expressamente do céu, a anunciar a alegria, a paz e a união entre os homens!»
Que a minha história conseguisse, por força da sua alegria contagiante, diminuir ódios e malquerenças no sistema de relações entre homens e mulheres.
Que, aos poucos, a minha história se espalhasse pelo mundo e fosse contada por um italiano, por um tailandês, por um inglês ou por um senegalês, chegasse à América, à Austrália, à Índia e à China e ao Tibete com toda sua frescura, esplendor, graça e encanto.
E que alguém difundisse a minha história pela Internet e esta se espalhasse por todo o planeta e fosse a delícia e a alegria de muitos milhões de pessoas de todo o mundo.
E quando alguém me perguntasse: mas onde é que você foi desencantar essa história tão engraçada e tão cheia de encanto e fascínio, eu responderia que ela não é minha, que a ouvi contar na rua a um transeunte, num dia em que eu ia, sozinho, a lembrar-me de como a riqueza está tão mal distribuída que leva uns a terem tanto e outros a terem tão pouco.

E eu esconderia a humilde verdade que fui eu que a inventei, num sonho, depois de um dia gratificante em que fui à capital ajudar a fazer um montão de sandes para serem distribuídas à noite, por mãos indi(v)izíveis, aos sem-abrigo de Lisboa, e a contei  àquela minha ex-colega que se encontrava num estado de absoluta tristeza penosa e sozinha, na cama daquele hospital.

publicado por argon às 14:13
link do post | comentar | favorito

.Argon

.pesquisar

 

.Maio 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

.arquivos

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

.favorito

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

blogs SAPO

.subscrever feeds