Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

PEDAGOGIA DA CRISE

 

 
Ao contrário do que é habitual na maior parte dos casos, conhecem-se as causas profundas da crise actual e os culpados. Ela nasce do apetite desenfreado dos agentes económicos, especialmente financeiros, levados pela obsessão do lucro, através de meios fraudulentos, servindo-se do crédito fácil e sem garantias reais a empresas e pessoas, criando a ilusão de ausência de riscos, fiados no crescimento acelerado e perpétuo da economia mundial. Ajudaram, também, à ‘festa’ os políticos, os técnicos e os jornalistas dando-lhes estes cobertura legal e mediática.
Por outro lado, a derrocada financeira teria sido evitada se os chamados reguladores que exercem a função de supervisão do sistema financeiro não se tivessem demitido das suas funções fiscalizadoras e, em alguns casos, não tivessem pactuado, fiados na auto-regulação dos mercados, com esses insaciáveis predadores, dando origem a mercados financeiros liberalizados sem regulação própria. Daí o facto de haver «bancos que não são bancos», era o «sistema bancário paralelo» ou o sistema de «bancos-sombra» que proliferaram, ao abrigo de uma ideologia profundamente anti-regulamentação e que assumiram riscos desproporcionados para a sua estrutura de capitais. Por outras palavras: havia ‘bancos’ que não eram bancos, do ponto de vista da regulamentação, mas que, mesmo assim, executavam funções bancárias, mas com escândalos contabilísticos e negócios fraudulentos, de que estamos a pagar a factura. Vejam-se, por exemplo, os casos do BPN e do BPP. Por outro lado, assistiu-se ao endeusamento dos méritos dos gestores de topo de grandes organizações, justificando a criação de sistemas de prémios perversos e obscenos.
Vendo o problema sob outro ângulo, podemos dizer que foi a abolição dos valores de que falou Adam Smith, no século passado, ou seja, a falta de ética e a sobrevalorização dos apetites individuais, que foram o caldo de cultura para o desastre.
O sistema em vigor até aqui tinha, como pilar, um individualismo avassalador. Um sistema onde ninguém era levado a fazer algo em comum. A linguagem quotidiana era esta: a minha família, a minha casa, o meu carro, o meu emprego, o meu salário, numa palavra, o meu ego. Um sistema onde ninguém é levado a construir nada em comum, onde a competição, o acúmulo e a ostentação eram a regra, em detrimento da solidariedade, da justiça, da generosidade, da caridade e da compaixão.
Integrada no sistema, temos sido bombardeados, constantemente, por publicidade, por vezes, agressiva e enganosa, apelando ao consumismo e associando os produtos a um conceito de felicidade.
E o sistema começa com as crianças, essa fatia de mercado que aprende a conjugar o verbo comprar, mas não são incentivadas a cultivar a palavra compartilhar.
Um sistema que desconhece o amor, a entre-ajuda, a solidariedade, o espírito público, pondo de parte o excluído e o necessitado.
Trata-se de um mundo que não tem recursos para promover a educação, a saúde e a justiça, nem para debelar e diminuir a fome mundial, mas que gasta tanto com guerras, conflitos e com a indústria bélica e que se mostra capaz de mobilizar em poucas horas triliões de dólares para socorrer bancos, empresas de montagem e correctoras, para afastar o seu fracasso terminal.
Quem não tem, quer ter; quem tem, quer mais e diz que nunca é suficiente. É a lógica do capitalismo selvagem que tanto incentiva a ostentação, o desperdício e o supérfluo. Veja-se a imagem dos telemóveis descartáveis, quase todos em perfeitas condições de uso. Somente nos EUA, 426 mil aparelhos vão para o lixo, diariamente, trocados por modelos novos. Sem contar com carregadores, baterias e acessórios, a acompanharem esse desperdício.
Resumindo, diremos: foi a obsessão do lucro, sem qualquer espécie de ética, que fez perder a cabeça aos predadores capitalistas que apelam a um consumismo infrene, para obterem lucro, sem olharem a meios, num crescendo de individualismo exacerbado, de falta de respeito pelos outros, baseados numa filosofia economicista, desprezando os valores morais da solidariedade e da partilha de bens.
O mais grave é que «a crise foi provocada pelos ricos e os pobres é que pagam», nas palavras de Lula da Silva, presidente do Brasil.
Por outras palavras: foram os ricos que provocaram o actual PREC (Processo de Roubos em Catadupa) e são os contribuintes que pagam as favas.
Afinal, esquecem-se que, sendo tudo de todos, há que fazer uma melhor e mais equitativa distribuição da riqueza havida e criada, por forma o tornar os ricos menos ricos e os pobres menos pobres, encurtando a distância escandalosa que os separa.
 
Artur Gonçalves
 
Bibliogrfia consultada
Paul Krugman, prémio Nóbel da Economia 2008, O regresso da Economia da Depressão e a Crise Actual
Um novo Paradigma para compreender o Mundo de Hoje, Alain Touraine
De Keynes à Síntese Neo-Clássica, uma análise crítica, Irina Osdchaya
Artigos de Imprensa
 
 
publicado por argon às 12:48
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