Domingo, 31 de Maio de 2009

RETRATO DE ANTÓNIO GUTERRES

 

A CAMPANHA ELEITORAL DE 1995
 
O texto reproduz o frente-a-frente na RTP1 entre o candidato do PSD, Fernando Nogueira e António Guterres do PS. Foi um programa memorável onde Guterres se afirmou claro vencedor. Faz-se o retrato de António Guterres que veio a ganhar as eleições, tendo sido nomeado Primeiro-Ministro. Retrato que, durante toda a sua actuação nesta qualidade, se revelou fiel e quase imutável.
Discurso de segunda pessoa, dirigido a Guterres, agora Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Neste poema, nunca se declara o nome do retratado, António Guterres, que voltou a aparecer nos cartazes do PS para as Europeias.
 
Se és um português, como poucos sabem sê-lo
e amas o teu país com carinho e com desvelo;
 
Se és um homem bem-posto, afável e risonho,
inspirando confiança ao homem mais bisonho;
 
Se sabes caminhar bem com pé firme e decidido
e, qual bambino lindo, tu és o mais querido;
 
Se tens um timbre de voz harmonioso e agradável
e inspiras confiança e te mostras sempre afável;
 
Se não és gordo nem magro e vestes a contento,
segundo as circunstâncias de um qualquer momento;
 
Se tens sempre nos lábios um sorriso de confiança,
como a inspirar firmeza, mesmo em qualquer mudança;
 
Se és um optimista, mesmo em caso de não sê-lo
e prendes os auditórios que se encastram a ti com zelo;
 
Se tens um olhar risonho, ardente e de simpatia,
inspirando aos teus sequazes motivos de euforia;
 
Se tens «poderes absolutos de vivência mediúnica»
para resolver problemas graves com uma solução única;
 
Se tens resposta p'ra tudo, pronta e de gosto novo,
a cair muito bem caída sempre no goto do teu povo;
 
Se tens um verbo fácil, charmoso e convincente,
mais pelo sonido do que pelo senso envolvente;
 
Se sabes com a tua facúndia responder ao adversário
com um discurso sempre pronto, certeiro e muito vário;
 
Se sabes dizer às gentes o que elas querem ouvir
e lhes sabes prometer um muito melhor porvir;
 
Se no frente-a-frente na TV estás sempre, sempre pronto,
sem receios nem timidez de um semelhante encontro;
 
Se estás sempre disponível para o confronto mediático
e vês todos os assuntos pelo espelho democrático;
 
Se quando se fala em ditadura tu dizes «não sou dos tais»
e, nas promessas que se fazem, tu és o que prometes mais;
 
Se sabes fazer constar que em ti é proselitismo
o que nos outros, bem demonstras, se chama clientelismo;
 
Se há quem diga serem teus os media da escritura
com o Público à frente, a promover a candidatura;
 
Se soubeste escolher com o teu staff um bom conselho
E acertaste no slogan do «novo contra o velho»;
 
Se semeias o país com a tua compostura
em estéticos cartazes a favorecer a criatura;
 
Se «o homem que sabe o que quer para o país» ser melhor
só suscita tímidas críticas de qualquer opositor;
 
Se da segunda fase soft a «laranja» faz bem troça
do slogan mais feliz «a nova maioria é nossa»;
 
Se imbuído no cartaz tu puseste um «coração»
porque à frente do racional privilegias a afeição;
 
Se com o teu último outdoor te distingues dos demais,
extravasando para o povo as preocupações sociais;
 
Se numa síntese oportuna sabes agarrar a ocasião
para lançar aos quatro ventos a «razão e o coração»;
 
Se com os ícones e os índices ganhas uma nova ética
como meio fático privilegiado de «indicialidade estética»;
 
 Se esta síntese prospectiva é um ganho, na verdade,
como que uma visão do mundo - «simbiose da modernidade»;
 
Se numa só e mesma mensagem subjazes a subliminar,
de mudança para melhor, em todo e qualquer lugar;
 
Se a foto do último cartaz é o cúmulo da beleza
Marcelo (1) dixit mais parece um «Redford à portuguesa»;
 
Se no primeiro debate dos media todos te dão vitorioso
por teu mérito e qualidade e por seres o mais charmoso;
 
Se os teus dotes de triunfador não sofrem qualquer compita,
vide o staff dissecador da análise do Mesquita; (2)
 
Se os analistas mais encartados com a análise magistral
te acharam mais descontraído e muito mais normal;
 
Se em presença dos bibelots te achaste mais natural,
com melhor timbre de voz e mais capacidade gestual;
 
Se sabes juntar ao porte um quantum satis de ironia,
adoçado com xis de humor, em tom rosa de alegria;
 
Se sabes ler nas entrelinhas a mensagem codificada
em metáfora ‘graçamoira’ (3) de «paixão assolapada»;
 
Se tens uma visão genérica que abarque todos e tudo
e prestas mais atenção, mais à forma que ao conteúdo;
 
Se guardaste uma boa imagem para o teu segundo debate
que tiraste da cartola, para superar o empate;
 
Se te perguntassem os eleitores, como se pergunta a um doutor
que milagre, dirias bem, «são rosas, (4) meu senhor!»;
 
Se estás disposto a formar governo com maioria ou sem ela,
sem curares de saber do número da clientela;
 
Se lá nisso és mais afoito do que é o teu rival,
porque queres governar, mesmo com minoria real;
 
Se no confronto do primeiro debate, com a tua doce lança,
tu bateste, desde o início, «o homem de confiança»;
 
Se essa noite foi notória, foi a noite do tira-teimas
e afastou do horizonte as notícias mais toleimas;
 
Se venceste ainda mais no segundo frente-a-frente,
- foste um «claro vencedor», quem o diz é o Vicente; (5)
 
Se a noite SIC memorável foi esclarecedora, sim senhor!,
porque os portugueses gostam sempre de votar no vencedor;
 
Se, como disseram as sondagens, a «rosa» já venceu
sem ser preciso, diz Cerqueira, (6) «rabos nem plumas ao léu»;
 
Se em audiência os debates bateram o Big Show Sic,
o que quer significar que foi coisa muito chique;
 
Se o que diz a nossa imprensa é que vai cair nas urnas
e as campanhas são uma festa de combate às taciturnas;
 
Se «não fazes ideia nenhuma do que seja governar»,
mas tens um grande poder e subtileza no argumentar;
 
Se as câmaras das TVs, te favoreceram, com certeza,
porque tu foste mais dotado pela madre natureza;
 
Se «uma pose do primeiro-ministro tu tomaste por antecipação»,
porque tomaste sobre os ombros a responsabilização;
 
Se soubeste ouvir calado os argumentos do rival
e soubeste dar-lhe resposta, adequada, filosofal;
 
Se no tele-debate do segundo round usaste um guarda-roupa
que a crítica menos lisonjeira sabidamente poupa;
 
Se também bateste aos pontos mais uma vez o teu rival
através de um bom combate de boa expressão corporal;
 
Se pelas câmaras e cenários, fizeste uma boa figura
conseguindo iludir a verdade da diferença de estatura;
 
Se a tua forma de olhar era um sinal de esperança
que conseguiste incutir em todos com uma pose de segurança;
 
Se até a disposição da mesa, aproximando os dois,
te favoreceu com vantagem, conforme se viu, depois;
 
se a memória veio em teu socorro, em um momento de aflição
e te agarraste com denodo à «tábua» da educação;
 
Se és um homem viajado de Lisboa a Calecu
e seis primeiros-ministros europeus dizes tratar por tu;
 
Se soubeste dar resposta firme ao «manifesto anti-Portas» (7)
e com a reacção de Aveiro tu nem sequer te importas;
 
Se tens acima da clientela o pundonor da criatura
e soubeste muito bem arrumar a «Candal figura»; (8)
 
Se no «exame» marcelista tens sempre nota de distinção,
ao contrário de tantos outros que mereciam reprovação;
 
Se as sondagens e o «D.N.» te dão como vencedor
e nos mostram quanto vales na ideia do eleitor;
 
Se a parafernália mediática já decidiu o vencedor,
dizes bem: «para que serve votar no outro senhor?»;
 
Se tens o perfil adequado e és uma força da natureza,
CANDIDATA-TE A PRIMEIRO-MINISTRO!
GANHAS, COM CERTEZA!
………
Notas: 1 – Marcelo Rebelo de Sousa, jurista, político, prof. universitário, jornalista e comentador político.
(2) - Mário Mesquita - prof. Universitário e analista político.
(3) - Vasco Graça Moura - escritor, tradutor, político e comentador.
(4) - A rosa é o símbolo da PS. A expressão veio da boca da Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, rei de Portugal, reportando-se ao célebre «milagre das Rosas».
(5) - Vicente Jorge Silva - jornalista, antigo director do PÚBLICO, político e comentador político.
(6) - Adriano Cerqueira - funcionário da televisão RTP. E comentador do desporto automóvel.
(7) - Paulo Portas - jornalista, antigo director do Independente, político.
(8) - Candal - na altura, advogado, político e figura frontal, muito controversa.
publicado por argon às 12:41
link | comentar | favorito

.Argon

.pesquisar

 

.Maio 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

.arquivos

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

.favorito

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

blogs SAPO

.subscrever feeds