Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

UM CASO SINGULAR

 

 

A RTP apresentou ontem, depois do telejornal, uma reportagem que me deixou um pouco transtornado. Antes de ter adormecido, fiquei a matutar no assunto da reportagem.
Passo a dar uma súmula, tanto mais que as informações que recolhi, são insuficientes, porque não era meu propósito, à partida, escrever sobre o assunto, para que eu possa fazer a amostragem do tema como desejaria. Mas, do que vi, passo a apresentar.
Tratava-se do destino de uma criança após a separação matrimonial dos pais. O pai não quis dar a cara e negou-se a falar. A mãe apareceu várias vezes, toda chorosa e lacrimosa, com a voz embargada pelos tratos de polé a que a sua filha foi sujeita por imposição de um senhor chamado profissionalmente de juiz..
O caso passou-se assim: o juiz de Portalegre determinou, sentenciou, decretou, que a criança tinha que ser internada no Lar Betânia, em Vendas Novas, onde está há sete meses. Motivo alegado pelo juiz por seu livre, único e prepotente alvedrio: a criança sofre de perturbações mentais, a criança não está no seu perfeito juízo, porque odeia o pai (foi esta a acusação!), ao dar mostras de não lhe agradar a companhia do pai. Por outra palavras mais técnicas e ajustadas que o juiz invocou: a criança tem a «síndrome de alienação parental». Porquê?. (Na reportagem aparece um vizinho da casa do pai a dizer que ouvia a criança chorar constantemente, enquanto esteve em casa e à guarda do pai).
A reportagem, muito bem documentada, apresenta os testemunhos de vários especialistas, alguns apareceram por diversas vezes, tais como: advogados, psicólogos, educadores, a condenarem o julgamento do juiz. Uma advogada, de código em mão, dizia que, antes da aplicação desta sentença, o juiz - fixem o nome, por favor, Nuno Duarte Bravo Negrão, tinha várias penas a aplicar que vinham descriminadas na lei, por ordem. Chegaram a testemunhar advogados mediáticos e psicólogos que são prato constante das televisões, como o bastonário dos advogados, Marinho Pinto, o advogado Rogério Alves, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, um outro que não recordo o nome, o psicólogo Eduardo Sá e todos afirmaram que a criança devia ser tida em atenção, defendendo-se os seus direitos, um deles, o de estar com a mãe, e a não ser maltratada. Não houve um único interveniente que estivesse do lado do juiz! A própria Organização Mundial de Saúde apareceu a afirmar que a síndrome de alienação parental não é considerada uma doença, ao contrário do que determinou o juiz, para fundamentar a sua decisão.  
A certa altura, as imagens mostraram o Lar Betânia, em Torres Novas. Mas nunca mostraram a criança, onde vive internada. E, certamente sem ter os afectos que merece e que lhe são necessários para a vida. Apareceu o director do Lar, um pastor de uma confissão religiosa não católica – não fixei o nome, que se mostrou intransigente e a defender a sua instituição e as suas regras. A reportagem afirmou que este senhor faz colecção (a expressão é minha) de Lares. Tem, nada mais, nada menos do que 37 (trinta e sete) em Portugal. Se todos forem como o de Torres Novas: uma grande quinta, grandes modernos e luxuosos edifícios... Devo acrescentar que na frontaria de entrada do Lar está escrito: IPSS. O que quer dizer que recebe subsídios do Estado, isto é, dos nossos impostos e toda a gente sabe que esta, como tantas outras, embora com o estatuto de instituição sem fins lucrativos, está em contradição com a letra dos estatutos, ao exibir tão obscenamente tão rico património com os sinais mais que evidentes exteriores de riqueza. E o mais grave é que não paga impostos!!! Este é o maior flop e uma das maiores vergonhas da nossa democracia de trampa. Este pastor dirige a instituição com mão de ferro e, presumo, com pouca afeição em favor das crianças. Digo isto porque foi o que mostrou a reportagem. Efectivamente, a reportagem apresentou a mãe a telefonar para o Lar a solicitar que lhe deixassem dar mais do que um brinquedo à criança, no Natal. A ‘voz’ do Lar foi sempre dizendo e manteve, que só podia oferecer uma prenda. A mãe só pode ver a filha uma vez por semana e só durante uma hora precisa e, possivelmente, pensarão os espectadores do programa como eu pensei, com alguém de guarda.
A mãe apresentou-se no programa lavada em lágrimas pelo que sucedeu à sua filha. E, o que não é normal, até o avô a chorar a perda da neta.
Mas o que a mim me levou a ter dificuldade em conciliar o sono não foi o que acabo de descrever.
É que o programa ficou-se por aqui. Uma verdadeira reportagem devia ter incluído a voz e opinião do juiz a justificar a sua sentença que vai contra todas as opiniões, e que se mantém fria, sem coração, injusta. É bem verdade que o poder judicial é uma estrutura em que o juiz é dono e senhor da sua sentença mas, co’os diabos, a justiça deve ser feita para os homens e para as crianças e não contra, e não os homens e as crianças feitas para a justiça, como acontece neste caso.
Foi isto que me revoltou: o silêncio omnipotente do juiz! E o facto de, neste país, apenas haver duas crianças que merecem consideração. A Maddie e a Esmeralda! Então, e os ouros casos como este? Nestes dois casos ainda houve voltas e reviravoltas de várias instâncias judiciais a intervir. À Esmeralda ainda concederam ter uns pais afectivos que a trataram como filha e é disputada, depois disso, pelo pai biológico e a justiça ainda hoje anda às voltas com este caso que já cheira a esturro. Aqui há um só juiz com o seu posso, quero, mando e julgo. Com a insensibilidade de uma pedra.
Esta reportagem é como uma estátua colocada na praça pública sem cabeça...
Pelo exposto, podemos dizer que a reportagem da RTP esteve coxa, incompleta, não deu ao caso o fim que era suposto mostrar, mas apresentou o personagem principal fora do baralho, com o protagonista omisso, coisa que não pode acontecer, num romance, nem num filme, na vida.
Estou com a Clara Ferreira Alves quando ela diz que a justiça é cega, muda, coxa e marreca. E eu acrescento e marreta.
 
PS:
Estava este texto já todo escrito e revisto, quando, a propósito de virem transcritas na Intenet várias escutas no âmbito do «Apito ferrugento, perdão, dourado«, com a transcrição das escutas a Pintainho da Costa e Valentão Loureiro, ao eu ler as críticas de populares na internet a este propósito, um deles escreve:
Dr. (refere-se a Marino Pinto que advoga a abolição do segredo de justiça) , apesar de isto não vir a propósito, o meu pedido é que faça alguma coisa pela Maria, de 8 anos, que foi tirada à mãe por não querer o pai».
Esta MARIA que tem agora 8 anos, é a criança que eu referencio no meu texto.
*
publicado por argon às 18:03
link do post | comentar | favorito
13 comentários:
De Pedro a 14 de Março de 2011 às 15:10
Tanta crítica ao Lar de Betânia porquê? Só porque é um Lar Evangélico? Ou não percebem que o Juiz também poderia entregar a criança a uma Santa Casa da Misericórdia qualquer? Qual o vosso problema? É preconceito religioso? De certo que existem regras impostas pelo tribunal, relativamente à visitação da criança, pelo que, as IPSS nestes casos terão que cumprir com essas exigencias. Creio que a criança será bem tratada onde está. Será que só sabem falar daquilo que não conhecem? Que provas têm voçês para estarem a falar daquilo que não sabem? Desde quando é que uma notícia que passa pela televisão, diz toda a verdade? Por isso é o que temos um país cheio de cuscas e beatas que pensam que a vida é uma novela.
Não tenho dúvidas que a criança estaria melhor com a mãe e é com ela que deveria estar. Os pais pensassem melhor antes de se divorciarem... ou antes, se sabiam que não tinham perfil para estar casados, para terem filhos e uma relação saudável, nada disto teria acontecido.
E mais vos digo,.... sim JESUS faz diferença na vida e na familia de uma pessoa. É possível este casal ser restaurado e haver uma reconciliação. Basta haver perdão, quererem e crerem que JESUS os pode restaurar e ambos terão a filha de volta para o lar que ela precisa.
Deus vos abençoe


Comentar post

.Argon

.pesquisar

 

.Maio 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

.arquivos

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

.favorito

. QUERO SER UMA TELEVISÃO

. O ANDARILHO VAGAMUNDO

. BODAS DE OURO MATRIMONIAI...

. A GUERRA MODERNA POR OUTR...

. DEUS, SUA VIDA, SUA OBRA

. UM CONTRASTE CIONTRASTANT...

. FALEMOS DE LIVROS

. TENHO UMA PALAVRA A DIZER

. AS CINQUENTA MEDIDAS - UM...

. O SÍTIO ATÉ ERA LINDO...

blogs SAPO

.subscrever feeds